Documentário sobre Alberto Dines revisita o legado do jornalista
“Fiz o filme que eu acho que ele gostaria que eu tivesse feito.” É desta forma que o cineasta Ugo Giorgetti resume a experiência de realizar Alberto Dines – vínculos de liberdade, documentário produzido pela SP Filmes, com financiamento da Fundação Conrado Wessel, dedicado à trajectória profissional de Alberto Dines. O filme, com cerca de 60 minutos, abriu a mostra O Cinema de Ugo Giorgetti, a 26 de Maio, no Espaço Petrobras de Cinema.
Mais do que uma biografia convencional, o documentário constitui um retrato íntimo e político de um homem que transformou o jornalismo numa forma de intervenção cívica. Durante 66 anos de actividade, Alberto Dines construiu uma carreira marcada pela independência editorial, pelo enfrentamento à ditadura militar brasileira e pela defesa da crítica aos próprios media.
Recorde-se que foi com Alberto Dines que o presidente do CPI, Dinis de Abreu, fixou o protocolo com o Observatório da Imprensa do Brasil, que ainda hoje se mantém em vigor.
Giorgetti optou por uma construção em mosaico, feita de depoimentos, arquivos históricos e entrevistas recuperadas. O resultado é um filme que procura captar não apenas os feitos do jornalista, mas sobretudo a dimensão intelectual e humana de uma figura central do jornalismo brasileiro contemporâneo.
Entre os testemunhos reunidos estão os de Caio Túlio Costa, Fernando Gabeira, Gabriel Priolli, Jô Soares, José Trajano, Juca Kfouri, Luiz Egypto, Mauro Malin, Paulo Markun, Roberto D'Ávila e Eugênio Bucci.
A participação de Norma Couri, companheira de vida de Dines, acrescenta uma dimensão afectiva ao retrato. Já Carlos Vogt recorda a parceria que ambos estabeleceram para criar o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp.
A capa sem manchete
Entre os episódios mais marcantes revisitados pelo documentário encontra-se a célebre edição do Jornal do Brasil sem manchete principal, em 1973, durante os anos mais duros da ditadura militar brasileira.
Na época, Dines exercia o cargo de editor-chefe do diário carioca, então considerado um dos jornais mais influentes e inovadores do país. Com o golpe militar no Chile proibido pela censura, qualquer manchete sobre a deposição de Salvador Allende estava vetada.
A resposta de Dines tornou-se histórica: publicou uma primeira página inteiramente dedicada ao golpe de 11 de Setembro, mas sem qualquer manchete. O silêncio gráfico transformou-se em denúncia política.
Pouco depois, o jornalista foi afastado do cargo. Num depoimento recuperado pelo documentário, gravado para o Museu da Pessoa, Dines recorda: “Imediatamente todas as portas se fecharam para mim.”
Não foi um caso isolado. Em consequência dos confrontos constantes com o regime militar, Dines foi preso em 1968 e detido outras vezes ao longo do período ditatorial.
Pioneiro da crítica de media
Outro momento fundamental da sua carreira ocorreu em 1975, na sucursal carioca da Folha de S.Paulo, onde criou a secção Jornal dos Jornais. A coluna, considerada pioneira na crítica de media no Brasil, abriu caminho para um debate sistemático sobre responsabilidade jornalística e ética editorial no país.
A iniciativa fortaleceu a reputação da Folha de S.Paulo e consolidou a imagem de Dines como um jornalista incómodo, crítico e intelectualmente independente. Décadas mais tarde, essa experiência serviria de inspiração directa para a criação do Observatório da Imprensa, fundado por Dines em 1 de Abril de 1996.
A sua passagem por Lisboa
O documentário revisita igualmente o período em que Alberto Dines viveu em Lisboa, durante cerca de oito anos, após receber a Bolsa Vitae de Artes, atribuída pela extinta Fundação Vitae.
Foi em Portugal que aprofundou a investigação sobre António José da Silva, recorrendo aos arquivos da Torre do Tombo
Dessa investigação nasceu Vínculos do Fogo, considerada uma obra de referência sobre o dramaturgo perseguido pela Inquisição. Entre os muitos livros assinados pelo jornalista destacam-se ainda Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig e O papel do jornal: uma releitura.
(Créditos da imagem: Ana Paula Oliveira Migliari/TV Brasil/EBC)