Assinalado anualmente a 3 de Maio, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa voltou a ser celebrado em 2026 com alertas internacionais sobre o agravamento das ameaças contra jornalistas, a erosão da liberdade de expressão e os desafios impostos pela desinformação e pelas novas tecnologias digitais. 

A data, instituída oficialmente em 1993 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, nasceu na sequência da Declaração de Windhoek, aprovada a 3 de Maio de 1991 por dezenas de jornalistas africanos reunidos em Windhoek, que defenderam a existência de uma imprensa livre, plural e independente. 

Antes disso, os Repórteres sem Fronteiras já tinham organizado, em Abril de 1991, o primeiro Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, numa iniciativa destinada a chamar a atenção para jornalistas presos, perseguidos ou assassinados em várias partes do mundo. 

Mais de três décadas depois, a data continua a funcionar como momento de reflexão global sobre o estado da liberdade de imprensa. Em 2026, a UNESCO promoveu em Nova Iorque um encontro internacional subordinado ao tema “Moldar um futuro dos direitos: a liberdade de expressão como pedra angular dos direitos humanos”. 

Na mensagem oficial divulgada para assinalar a data, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, alertou para o aumento da violência contra jornalistas e para a crescente fragilidade da liberdade de imprensa em várias regiões do mundo. 

“Costuma-se dizer que, na guerra, a verdade é a primeira vítima. Mas, com demasiada frequência, as primeiras vítimas são os jornalistas que arriscam tudo para relatar a verdade”, afirmou. 

Guterres destacou que os profissionais da comunicação social enfrentam “censura, vigilância, assédio legal e até a morte”, sublinhando que os últimos anos registaram “um aumento acentuado no número de jornalistas mortos”, muitas vezes deliberadamente visados em zonas de conflito. 

O líder das Nações Unidas denunciou ainda os níveis de impunidade associados aos crimes contra jornalistas. “85% de todos os crimes cometidos contra jornalistas não são investigados e ficam sem sentença: um nível de impunidade inaceitável”, declarou. 

Na mesma mensagem, António Guterres alertou também para os impactos da desinformação, da manipulação digital e das pressões económicas sobre o jornalismo. “Quando o acesso a informação fidedigna acaba, a desconfiança ganha raiz. Quando o debate público é distorcido, a coesão social enfraquece”, afirmou, defendendo que “toda a liberdade depende da liberdade de imprensa”. 

Também o Papa Leão XIV assinalou o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, evocando os jornalistas mortos no exercício da profissão durante uma intervenção no Vaticano. 

“Infelizmente, este direito é frequentemente violado, por vezes de forma flagrante, por vezes de forma escondida”, lamentou o líder da Igreja Católica, recordando “os muitos jornalistas e repórteres que foram vítimas da guerra e da violência”. 

Em Portugal, o Presidente da República, António José Seguro, divulgou igualmente uma mensagem centrada no papel da comunicação social enquanto pilar democrático e contrapoder institucional. 

“A Liberdade é o fundamento da democracia. E a Liberdade de Imprensa é uma das suas expressões mais exigentes – porque não se limita a existir, tem a obrigação de incomodar”, afirmou o chefe de Estado. 

Na nota enviada aos jornalistas, António José Seguro recordou que “129 jornalistas e profissionais da comunicação social foram assassinados no mundo” no último ano. “Não é uma estatística. É uma acusação”, sublinhou. 

O Presidente português alertou ainda para várias ameaças contemporâneas à independência editorial, incluindo “a regressão democrática”, “a pressão das autocracias sobre os media independentes”, “a precariedade económica das redacções”, a concentração da propriedade dos media e a proliferação da desinformação. 

“O resultado é um ecossistema de informação cada vez mais frágil, onde a verdade disputa espaço com o espectáculo e onde o ‘circo mediático’ encontra audiências que a seriedade jornalística nem sempre consegue alcançar”, afirmou. 

Na conclusão da mensagem, António José Seguro apelou à mobilização da sociedade em defesa da comunicação social livre e independente. “Defender a Liberdade de Imprensa é, por isso, uma responsabilidade de todos. É uma prioridade de cidadania”, declarou. 

As celebrações do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa em 2026 ficaram ainda marcadas por debates sobre inteligência artificial, manipulação algorítmica e sustentabilidade económica dos media, num momento em que organizações internacionais alertam para o aumento da desinformação e para o enfraquecimento das condições de trabalho nas redacções.

(Créditos da imagem: RSF)