Mas obter um título universitário não era razão suficiente para contentar estes novos académicos. Importava aplicar metodologias de análise e instrumentos de contextualização teórica à realidade do jornalismo que se pratica em Portugal.


O grupo consolidou-se: Adelino Gomes, Alexandre Manuel, Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Diana Andringa, Dinis de Abreu, José Luiz Fernandes… Alargou-se a jovens doutorandos: Helena Freitas, Isabela Salim, Liliana Pacheco, Pedro Diniz de Sousa, Sara Meireles Graça, Vanda Ferreira… Procurou apoio junto de alguns dos docentes que se revelaram mais activos durante a fase de estudos: José Rebelo, Rui Brites, José Luís Garcia…


E obteve, da Fundação para a Ciência e Tecnologia, financiamento para dois projectos de investigação.

O primeiro projecto levou cinco anos a ser executado e as suas conclusões foram editadas em livro com o título «Ser Jornalista em Portugal – perfis sociológicos».


Em termos sociográficos foi possível distinguir, segundo dados referentes a 2006, três perfis-tipo.

- O primeiro perfil inclui 3056 jornalistas, 83% dos quais ingressaram na profissão antes de 1976. Apesar de apresentar, globalmente, graus inferiores de escolarização, é neste perfil que se encontram mais de metade dos jornalistas exercendo funções de editor/chefe de redacção (53,2%) e de direcção (80,3%).

- No segundo perfil enquadram-se 3259 jornalistas, 90% dos quais entraram na profissão entre 1977 e 1986. São, na sua quase totalidade, portadores de um diploma de ensino superior e cerca de 45% ocupam lugares de editor/chefe de redacção.

- No terceiro perfil encontram-se 1087 jornalistas, com idades compreendidas entre os 18 e os 29 anos. Praticamente todos com formação superior. Apenas 47% possuem carteira profissional e só excepcionalmente desempenham cargos de responsabilidade.

Mas, concretamente, quem são, afinal, e o que pensam da profissão, estes jornalistas distribuídos pelos três perfis-tipo acabados de enunciar?


A resposta chegou através do recurso a meia centena de histórias de vida recolhidas pelos investigadores.


Os três perfis-tipo correspondem a três gerações.

- Jornalistas que acederam à profissão durante a ditadura e nos anos marcados pela mudança de regime político. Motivados pelo ambiente de repressão das liberdades, primeiro, e pela confrontação política, em democracia, depois, revelam forte pendor para a intervenção política e social. Compensam a ausência de formação académica (não havia, à época, quaisquer cursos superiores na área e o acesso às universidades estava limitado a uma elite sociologicamente bem determinada) com uma cultura baseada na experiência vivida e em leituras de grandes clássicos.

- Jornalistas que entraram na profissão em período de estabilização do regime democrático: adesão ao Mercado Comum, desenvolvimento económico e financeiro, dinamização e diversificação dos consumos, emergência de novas tecnologias de comunicação e de informação, privatização e criação de jornais diários de informação geral, multiplicação de publicações especializadas, abertura da rádio e da televisão a operadores privados. Beneficiando de um clima de expansão, muitos destes novos jornalistas, já com formação universitária, atingiram, rapidamente, lugares de direcção nas respectivas empresas de comunicação social. Consequentemente, produzem discursos extremamente favoráveis à profissão, manifestando, no entanto, algumas reservas no que respeita ao «espírito de missão» que animava muitos dos seus predecessores. Opõem uma concepção de jornalismo que afirmam como «pragmática» à concepção precedente julgada «romântica».

- Jornalistas que entraram na profissão depois do ano 2.000, isto é, em plena crise económica e financeira. Trata-se de uma geração que se confronta com um mercado de trabalho em recessão permanente: empresas que encerram, que se associam em grupos multimédia com a concomitante redução de efectivos. Neste conjunto de jornalistas, onde avultam os eternos estagiários, ou seja, aqueles que acumulam estágios e mais estágios sem jamais conseguirem regularizar a sua situação profissional, grassa o pessimismo, a amargura, o desencanto face a uma profissão que, no espaço público, sempre se caracterizara por um estatuto de privilégio.


O segundo projecto, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, decorreu de2010 a2013 e procurou analisar, com maior profundidade, esta última geração de jornalistas. Deu origem a outro livro, intitulado «As Novas Gerações de Jornalistas em Portugal».


Verificou-se que apenas 20, dos mais de quinhentos jovens jornalistas que responderam a um questionário distribuído com o apoio da Comissão da Carteira Profissional, escolheram a profissão «para mudar o mundo». E, embora rara, essa ilusão foi-se, pouco a pouco, esbatendo. Venceu o conformismo face à precariedade que alimenta a descrença quanto à evolução na carreira. Face à insegurança permanente (42% dos inquiridos admitem a hipótese de vir a ficar no desemprego e 20% acham-na «muito provável»»). Face às pressões que se multiplicam e explicam reacções do género: «Fiz o que me mandaram, estava em situação de precariedade»; «Em causa estava o meu posto de trabalho…acatei as ordens»; «Quando as ordens são internas, as escolhas são apenas duas: ou acatar ou ir embora».


Assiste-se, então, como ressaltou deste estudo, a uma progressiva proletarização e desprofissionalização dos jornalistas.

Proletarização já que, integrados numa cadeia de produção, os jornalistas, muito particularmente os mais jovens, tendem a desempenhar, de forma intensiva, tarefas de execução despidas de criatividade e sem perspectiva de conjunto, ditadas por rotinas fixadas por entidades externas.


Desprofissionalização, na medida em que, investimentos em novas tecnologias de informação e de comunicação, podem induzir responsáveis de empresas de comunicação social a converter os jornalistas em meros «produtores de conteúdos» e, a prazo, a substituí-los nessa função por não-jornalistas.


Assim rapidamente resumidas, estas duas investigações consumiram quinze anos de trabalhoem comum. Horase horas de discussão. Centenas de páginas escritas.


Sem uma única desistência.


Era preciso continuar. Alargando, a outros, a experiência adquirida. Exigindo, para o jornalismo, os meios necessários ao seu exercício. Afirmando o Jornalismo como um campo de questionamento permanente. Denunciando a suposta evidência. Em suma: reivindicando a aplicação efectiva do direito a informar e a ser informado, inscrito na Declaração Universal dos Direitos do Homem.


Por isso e para isso foi formalmente constituída, no dia 14 de Janeiro de2016, aAssociação de Estudos Comunicação e Jornalismo – AECJ.


Actuando junto do meio jornalístico mas, também, dos meios económico e político, A AECJ propõe-se contribuir, decisivamente, para situar a importância fundamental do jornalismo na estruturação do espaço público. Na formação de uma opinião pública livre, crítica e responsável, condição indispensável ao fortalecimento de uma sociedade democrática.


A AECJ organizará cursos intensivos de jornalismo. Empreenderá outros projectos de investigação. Promoverá ciclos de conferências. A primeira destas conferências terá lugar no dia 3 de Março. Tema: Os media e o poder político - o comportamento dos media nas últimas eleições legislativas e presidenciaisem Portugal. Conferencista: José Manuel Paquete de Oliveira. Comentadores: Mário Mesquita e José Vítor Malheiros.


A ambição é muita. E a esperança não é menor.