Essas redes, escreve o Economist, amplificam as divisões existentes na sociedade e tiram dignidade à vida política. Como não há contraditório, reforçam os preconceitos das pessoas. E como circulam na internet numerosos textos anónimos, revelam cobardia, permitindo a impunidade das calúnias. Além disso, segundo o Economist, as redes sociais dão grande relevo a escândalos e à baixa política, que assim se torna cada vez mais agressiva e desagradável, afastando as pessoas.

 

Julgo que o semanário britânico tem razão. Mas, quando essas críticas foram publicadas (3 de Novembro), calhou eu estar a ler uma longa e excelente biografia de Alexander Hamilton, de Ron Chernow. É um livro que mostra como foram complicadas as primeiras décadas dos Estados Unidos. E como foram azedos e frequentes os conflitos entre os “pais fundadores” daquela república – como eram A. Hamilton e T. Jefferson. Aliás, Hamilton, porventura o mais dotado político do seu tempo, foi morto num duelo em 1802 pelo vice-presidente dos EUA Aaron Burr, culminando longos anos de hostilidade recíproca.

 

Esses conflitos passavam sobretudo pelos jornais, que se multiplicavam então no solo americano. Jornais com poucas notícias e muita opinião - eram, então, uma importante arma da luta política. Ora, os ataques, políticos e pessoais, publicados na Imprensa americana nos finais do século XVIII eram frequentemente agressivos e na sua maioria assinados com pseudónimos, logo, praticamente anónimos. “Os artigos assinados (pelos seus autores) eram relativamente raros” (Ron Chernow, Alexander Hamilton, ed. Head of Zeus, Ltd., pág. 397).

 

Ou seja, os males de que se queixa, com razão, o Economist não vêm das novas tecnologias, mas do uso que delas faz muita gente. Claro que as redes sociais dão a esses males uma amplitude muito maior do que a dos jornais do passado. Mas, na sua raiz, os problemas que as redes sociais suscitam já existem há séculos.