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Opinião

Aprisionados numa teia de aranha…

Apesar de todo o meu passado de jornalista, tento cada vez mais colocar-me no presente de cidadão leitor, escutante ou visionador da atual torrente de notícias. Não ouso elevar-me ao papel de futurólogo desta relação entre receptor e emissor. Na verdade, isso interessa-me pouco. Quero fixar-me no hoje, já não tenho alma de vidente. E o hoje é a sociedade dos sentidos e das emoções. Li recentemente um pequeno ensaio do Prof. Moisés Lemos Martins (UniMinho) sobre este deslizar progressivo do “regime das ideias” a um “regime das emoções”, do ideológico ao sensologico. Do primado, quase absoluto, do surpreender e do fazer sentir sobre o pensar. Estamos no paraíso da descoberta da quantidade de frutos, sobre o primado da descoberta da sua qualidade. Tornou-se difícil discernir entre suspeita e culpa, entre inocência presumida e culpa reconhecida - expondo-se assim o cidadão e as instituições a uma vitimizaçao continuada, sem direito ao usufruto do direito de presunção de inocência. Eu sei: as audiências, a feroz luta entre os produtores de notícias, esse plano inclinado que nos conduz ao esmagamento da racionalidade. É verdade, as tecnologias modernas estão aí sem retorno, a proporcionar a multiplicação e a mistura de fontes reais e de fontes construídas pela propaganda (as ‘fake’). A força da imagem. Multiplicada pela democratização da intervenção opinativa de cada um, sem as regras tradicionais da notícia, que constituem as redes sociais. Se o verso significa um mais vasto controlo dos cidadãos sobre a sociedade, o reverso aproxima-se de uma anarco ditadura da informação a que temos cada vez mais acesso. E significa, também, uma desestruturação dos pilares em que assentava a sociedade de (maior) racionalidade sobre a sociedade das sensações e emoções - que determina o ‘Já!’, o imediato e apressado julgamento. Creio que a necessidade comercial das empresas de media pressiona os profissionais a se moverem também nesse universo emocional, e as redações a se desqualificarem. Faço parte dos que pensam, sendo eu um partidário da liberdade e das liberdades, que o papel dos media na desestruturação da sociedade democrática da ideologia das ideias é o de crescente conivência. Estão aprisionados numa teia de aranha.
Julho 22
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