Um projecto colombiano de “media” simplifica a linguagem financeira
Um projecto colombiano está a conquistar audiências ao explicar economia com humor, memes e linguagem acessível. A iniciativa chama-se Economía para la Pipol e já reúne mais de 200 mil seguidores nas redes sociais.
Criado há cinco anos por uma equipa maioritariamente feminina, o projecto pretende aproximar os cidadãos das questões económicas que afectam o seu quotidiano.
A ideia nasceu num contexto de protestos contra uma reforma fiscal na Colômbia. María Camila González, directora executiva e cofundadora, trabalhava então no jornal económico Portafolio e apercebeu-se de que a informação sobre impostos e finanças não estava a chegar de forma clara às pessoas.
“Lembro-me de estar num grupo de WhatsApp com a minha família. As minhas tias estavam a enviar mensagens falsas em cadeia sobre a reforma fiscal, e eu explicava-lhes as coisas […] mas elas não liam o que eu escrevia porque era muito técnico”, recorda, numa entrevista ao Instituto Reuters.
O projecto começou de forma informal, com publicações que respondiam a perguntas básicas como “o que é a reforma fiscal, o que é um imposto” e acabou por evoluir para uma redacção estruturada, com nove pessoas.
O uso de humor e linguagem acessível
A marca distintiva da Economía para la Pipol está na sua linguagem visual e narrativa: memes com personagens populares, referências culturais e um tom descontraído. Para a fundadora, esta opção resulta de uma reflexão sobre o distanciamento entre os media tradicionais e o público.
“Queríamos quebrar a barreira da língua, começando pelo próprio nome: Pipol está mal escrito em inglês, mas nós dissemos: ‘É assim que se pronuncia em espanhol’”, explica. O objectivo é replicar o tom de uma conversa informal, tornando conceitos complexos compreensíveis.
Apesar do tom leve, González garante que o rigor jornalístico permanece central: “A qualidade e o rigor jornalístico por detrás de tudo o que fazemos […] dão-nos credibilidade”.
Público diversificado e em crescimento
A audiência do projecto é heterogénea. A faixa etária predominante situa-se entre os 25 e os 45 anos, com diferenças conforme a plataforma: mais mulheres no Instagram, mais homens de meia-idade no YouTube e um público mais jovem no TikTok. Já no Facebook, a audiência é composta sobretudo por utilizadoras mais velhas.
A estratégia editorial baseia-se em responder às dúvidas reais das pessoas. “A essência do que fazemos é responder a perguntas. É por isso que todos os títulos […] são perguntas: porque são perguntas do povo”, afirma González.
Um modelo de negócio sustentável
A Economía para la Pipol diversifica as suas fontes de financiamento. Entre as principais receitas estão parcerias educativas patrocinadas, cursos e conferências, workshops, monetização nas redes sociais e a venda de um livro publicado pela Penguin Random House.
Com um orçamento anual na ordem dos 200 mil dólares, a equipa mantém controlo financeiro rigoroso e recorre a consultoria externa para garantir sustentabilidade.
Inovação com inteligência artificial
O projecto está também a explorar novas tecnologias. Um dos desenvolvimentos recentes é um chatbot baseado no conteúdo produzido pela redacção, capaz de responder a perguntas económicas dos utilizadores. Segundo González, a ferramenta “baseia-se apenas no nosso conteúdo, pelo que não tem alucinações”.
“Lançámos em Setembro. Ainda está em versão beta e estamos a ajustar alguns detalhes, mas já está a funcionar. Até agora, tivemos mil conversas abertas. Ou seja, as pessoas estão a usá-lo. Tem sido muito giro porque abre-nos um novo leque de possibilidades e é um espaço inovador. No nosso fluxo de trabalho, utilizamos também diversas ferramentas para optimizar processos e organizarmo-nos. Queremos continuar a experimentar com a IA e ver como podemos contar histórias de uma forma melhor”, acrescentou.
Apesar do sucesso, a dependência das plataformas digitais representa um risco. Alterações de algoritmo e queda de alcance, nomeadamente na rede X, afectaram a distribuição dos conteúdos. A equipa procura agora diversificar as fontes de receita e reduzir a dependência das redes, sem abandonar esses espaços.
A médio prazo, a expansão internacional está nos planos. Embora o conteúdo seja actualmente centrado na Colômbia, entre 5% e 10% dos seguidores já são estrangeiros, incluindo comunidades latino-americanas na Europa e na América do Norte.
(Créditos da imagem: Captura de ecrã do site Economía para la Pipol)