Jornalismo radiofónico enfrenta ameaças e pressões crescentes
Na sequência do Dia Mundial da Rádio, assinalado a 13 de Fevereiro, a organização Repórteres Sem Fronteiras alertou para a situação crítica do jornalismo radiofónico à escala global. Segundo a organização, as rádios (muitas vezes a última fonte de informação credível em contextos de crise) estão a ser alvo de pressões crescentes, desde ataques armados e censura até estrangulamento financeiro e decisões políticas adversas.
A directora editorial da RSF, Ana Bocandé, sublinha o carácter essencial do meio: “o rádio […] é muitas vezes a única fonte de informação restante em áreas de difícil acesso”, sendo também “uma forma vital de coesão social e um pilar do panorama global das notícias”. Contudo, acrescenta que é precisamente essa relevância que o torna alvo de “ameaças multifacetadas, incluindo encerramentos arbitrários, intimidação, saques e violência”.
Os RSF fazem uma panorâmica mundial dessas ameaças. Nas Filipinas, a rádio continua a ser vital para um arquipélago disperso, mas também altamente perigosa: dos jornalistas mortos desde 1986, a maioria trabalhava neste meio. O assassinato de Erwin Segovia em 2025 é encarado como um exemplo da violência sistemática contra profissionais que comentam assuntos políticos e sociais.
Na República Democrática do Congo, sobretudo nas regiões orientais marcadas por conflitos armados, as rádios comunitárias são directamente visadas. Mais de duas dezenas foram saqueadas ou encerradas, e vários jornalistas foram mortos ou raptados, evidenciando a fragilidade da informação local em zonas de guerra.
Situação semelhante ocorre na região do Sahel, onde jornalistas de rádios comunitárias enfrentam raptos e ataques. O caso do jovem repórter Abdoul Aziz Djibrilla, morto num ataque armado, simboliza os riscos extremos associados ao exercício da profissão em áreas dominadas por grupos armados.
No Afeganistão, o problema assume a forma de censura institucional. As autoridades talibãs impõem regras de “moralidade” que proíbem música e participação feminina, chegando a suspender estações como a Rádio Begum. A exclusão total das vozes femininas em certas províncias evidencia a instrumentalização da rádio para controlo social e ideológico.
Mesmo em democracias consolidadas, como os Estados Unidos, o sector enfrenta pressões políticas. A administração de Donald Trump cortou o financiamento público à rádio e televisão públicas, colocando em risco centenas de estações locais e também emissoras internacionais como a Voz da América.
Na Amazónia brasileira, as rádios desempenham um papel crucial na cobertura de temas ambientais e sociais, mas enfrentam dificuldades logísticas, falta de financiamento e pressões de interesses económicos locais. Já na Europa, apesar da existência de legislação para proteger o pluralismo, persistem ameaças à independência e ao financiamento das rádios públicas, com exemplos de pressões políticas e cortes orçamentais em vários países.
Em contextos de guerra activa, como a Ucrânia e o Sudão, a rádio continua a ser uma ferramenta essencial para manter populações informadas, mesmo sob bombardeamentos, bloqueios de sinal ou destruição de infraestruturas. No Sudão, apenas duas das 22 estações anteriores à guerra permanecem em funcionamento, ambas sob controlo das partes em conflito.
(Créditos da imagem: Imagem retirada do site dos RSF)