Publicação comunitária contraria o declínio dos “media” regionais
A revista comunitária Greater Govanhill, fundada em 2020 no sul de Glasgow, tornou-se um exemplo de jornalismo local num contexto de declínio dos media regionais e expansão dos desertos de notícias. Criada para servir um dos bairros mais diversificados da Escócia, a revista surgiu porque, segundo a sua fundadora, Rhiannon J Davies, existia “uma desconexão entre o que era escrito em alguns dos principais meios de comunicação e a realidade de realmente viver aqui”, contou ao The Fix.
Publicada em formato impresso a cada dois meses, com 4 mil exemplares e um alcance estimado de 12 mil pessoas, a revista decidiu apostar no papel. Para Davies, a versão impressa permite “chegar às mãos de pessoas que, de outra forma, poderiam ficar isoladas ou excluídas dessas conversas”. A distribuição é feita por voluntários e em pontos do quotidiano local, como cafés, lojas, cabeleireiros e centros comunitários.
A Greater Govanhill pratica um jornalismo lento, orientado para soluções e profundamente participativo. O processo editorial inclui reuniões abertas — com leitores, voluntários e escritores — para discutir o que está a acontecer no bairro e identificar temas relevantes. Depois de o tema da edição ser definido colectivamente, enviam uma convocatória por meio de diferentes plataformas: “Alguém por acaso acha que quer escrever e ler sobre isto ou acha que devemos escrever sobre isto nesta edição? Entre em contacto”. Muitos colaboradores são estreantes e recebem orientação em pesquisa, redacção e estrutura.
A revista também forma novos repórteres comunitários. Davies explica que os programas começam por questões fundamentais: “Qual é o objectivo do jornalismo? Para que serve? Onde é que ele se encaixa na sociedade?”. Além de publicar sobretudo em inglês, a revista acolhe textos nas línguas faladas localmente e aborda temas globais com enfoque local — habitação, alimentação, jogos de azar, dados e estatísticas. “Estamos sempre a tentar manter este processo de escuta para continuar a reflectir sobre o que ouvimos e tornar o nosso trabalho relevante para as pessoas», explicou Davies.
Para além da publicação, a Greater Govanhill promove eventos, oficinas e debates sobre temas urgentes. “Jornalismo e notícias são um aspecto, mas também há artes, cultura, música e conexão”, afirma, sublinhando a dimensão comunitária do projecto.
Como empresa social, a revista diversifica receitas (subvenções pequenas, publicidade local, doações de membros, workshops e eventos) e integra a rede Scottish Beacon, que reúne 25 publicações independentes para partilhar recursos, colaborar em reportagens e captar publicidade conjunta.
A proposta da Greater Govanhill é, por vezes, acusada de se aproximar do activismo. Davies recorda que, no início, ouviu pessoas dizerem que “não é jornalismo”, mas já com alguns anos de experiência e depois de vários prémios ganhos, concluiu que “não há problema em ir contra a corrente e fazer algo diferente”. Para ela, assumir o compromisso com a comunidade é básico: “A razão pela qual faço jornalismo, a razão pela qual lancei esta publicação, é porque me importo com o lugar onde vivo e com as pessoas que nele vivem. E tentar fingir que não nos importamos pode ser bastante prejudicial, em termos de confiança, em termos de relevância e todas essas outras grandes questões que estão a ser discutidas hoje”.
(Créditos da imagem: Greater Govanhill)