Num novo texto para o Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, Carlos Castilho parte do chamado “mega passaralho” (jargão jornalístico para designar uma demissão em massa de profissionais) ocorrido no The Washington Post para discutir uma transformação estrutural da imprensa contemporânea. O autor utiliza o caso como exemplo de uma divisão crescente entre jornalismo global e jornalismo local, com consequências profundas para a democracia e para o papel social da informação. 

Segundo o autor, ao despedir cerca de 300 profissionais e fechar editorias dedicadas à cobertura local, cultura e outros temas especializados, o jornal acaba por deixar os seus leitores “no ‘escuro’ no debate sobre questões relacionadas com a democracia”. A crítica central é que a decisão de Jeff Bezos, proprietário do jornal, revela uma lógica empresarial alheia ao futuro do jornalismo e centrada em interesses tecnológicos e económicos. 

Castilho argumenta que esta reconfiguração editorial conduz a uma concentração temática no poder político e económico dos Estados Unidos, reduzindo drasticamente o espaço da informação local. O jornal passa a dirigir-se a elites, competindo directamente com outros órgãos de referência como o The New York Times e o The Wall Street Journal, bem como com newsletters e influenciadores que operam nos “principais núcleos de poder” de Washington”. “É uma escolha editorial com desenlace incerto, porque do seu sucesso dependerá a sobrevivência financeira do que restou do The Washington Post. E tudo indica que a polarização entre seguidores e desafetos da administração Trump pode acabar por empurrar o jornal para o lado da direita norte-americana". 

O ponto central do texto é a ideia de uma divisão estrutural da imprensa. Para Castilho, a imprensa global está cada vez mais alinhada com as elites e com a “guerra de narrativas” que acompanha a disputa pelo poder político e económico. Neste contexto, afirma que “a informação é uma arma política e o jornalismo uma ferramenta executiva”. Este segmento tende a manter viabilidade económica porque conta com financiamento de governos, empresas ou lobbies interessados em moldar narrativas. 

Em contrapartida, o autor identifica um espaço emergente: o jornalismo local. Este surge como resposta a um vazio informativo que afecta “biliões de indivíduos, no mundo inteiro, que estão literalmente no escuro em matéria de participação democrática porque não dispõem de ferramentas informativas locais”. Para Castilho, a ausência de cobertura local compromete a cidadania e o controlo democrático, pois impede as pessoas de acederem a informação relevante para a sua vida quotidiana e para a gestão do seu orçamento doméstico. 

Apesar do potencial do jornalismo local, o autor sublinha os desafios da sua implementação. É necessário reconstruir a confiança do público, habituar as comunidades a pagar por informação e redefinir a relação entre jornalistas e cidadãos. Os profissionais terão de abandonar a postura de autoridade e assumir-se como parceiros das comunidades, orientando-se para a prestação de serviços informativos. Esta mudança implica também redefinir ambições profissionais, afastando-se das grandes capitais e dos centros globais de poder. 

Castilho conclui com uma reflexão sobre os efeitos desta divisão para o papel social do jornalismo. O caso do Washington Post representa um revés para todos os que acreditam no jornalismo como instrumento de empoderamento democrático e combate à desinformação. Ao privilegiar a cobertura global e das elites, a imprensa arrisca abandonar vastas populações à desinformação e à ausência de escrutínio local, aprofundando desigualdades informativas e fragilizando a democracia. 

(Créditos da imagem: Unsplash)