A transformação acelerada do mundo informativo está a criar um ambiente de “caos noticioso” que exige uma profunda reeducação informativa, tanto por parte dos jornalistas como do público. A conclusão é do jornalista e investigador Carlos Castilho, num artigo de opinião para o Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, ao analisar os impactos da digitalização no consumo de notícias. 

Segundo o autor, a mudança no modo como as pessoas se informam ocorreu a um ritmo superior à capacidade de adaptação da sociedade. “Já deu para perceber que o nosso mundo informativo mudou muito. O problema é que a mudança atropela a nossa capacidade de adaptação à nova situação”, escreve. 

Os dados apresentados ilustram essa ruptura: cerca de 70% dos brasileiros informam-se exclusivamente através de plataformas digitais como Facebook, TikTok, Instagram ou X, enquanto nos Estados Unidos esse valor se aproxima dos 90%. Em contrapartida, a confiança na informação disponível online permanece reduzida. Apenas 17% dos utilizadores confiam nos conteúdos que consomem, deixando uma larga maioria (83%) num estado de desconfiança e insegurança. 

Para Castilho, a actual crise de confiança resulta de uma mudança estrutural no paradigma informativo. Durante mais de um século, desde o surgimento da imprensa moderna, o acesso à informação era limitado e concentrado em poucos meios, o que favorecia a ideia de que as notícias publicadas representavam a verdade factual. 

Este modelo foi reforçado pelo desenvolvimento do jornalismo radiofónico e televisivo, consolidando uma lógica assente na autoridade editorial. No entanto, a explosão do digital veio alterar radicalmente esse equilíbrio. 

“A superoferta de notícias combinada com a participação directa do público permitiu o acesso das pessoas a várias versões do mesmo indicador numérico, facto ou evento”, sublinha. Como consequência, a tradicional regra jornalística de “ouvir os dois lados” tornou-se insuficiente. “Não há mais apenas dois lados de um facto. Há vários, teoricamente uma infinidade.” 

Entre a desorientação e o risco de conflito 

A ausência de adaptação a este novo cenário está, segundo o autor, a gerar níveis crescentes de desorientação e tensão social. Castilho alerta para um ambiente “caótico e potencialmente bélico”, visível nas reacções do público à cobertura de conflitos recentes, como os da Faixa de Gaza, da Ucrânia ou do Irão. 

Perante a sobrecarga informativa, distinguir entre factos e desinformação torna-se cada vez mais difícil. Ainda assim, o autor rejeita a ideia de que a solução passe por desconfiar de tudo. “A questão não é desconfiar de tudo o que é publicado porque isto pode levar a uma paranoia noticiosa”, adverte. 

Em vez disso, propõe uma mudança de mentalidade: aceitar que toda a informação é, por natureza, incompleta. “O princípio básico da reeducação informativa é que as notícias, por serem produzidas e consumidas por humanos, serão sempre, inevitavelmente, incompletas”, afirma. 

Passar da desconfiança à curiosidade 

A resposta ao caos informativo passa, assim, por uma nova abordagem, assente no conceito de literacia mediática. O objectivo é substituir uma atitude defensiva por uma postura mais activa e inquisitiva. “O objectivo é levar as pessoas e os jornalistas a uma mudança de uma postura defensiva (é preciso desconfiar) para uma atitude proactiva (preciso saber mais), ao ler, ouvir ou ver uma notícia jornalística”, escreve. 

Esta mudança implica abandonar a lógica binária que opõe verdade e falsidade, reconhecendo antes a complexidade inerente à informação. “Nenhuma notícia é 100% verdadeira”, sustenta, defendendo que este reconhecimento pode reduzir a polarização e incentivar a colaboração entre diferentes perspectivas. 

Para Castilho, cabe ao jornalismo liderar este processo de reeducação. No entanto, essa missão exigirá transformações profundas nas rotinas, valores e práticas profissionais. 

Num ambiente dominado por uma “avalancha de versões”, os jornalistas terão de dedicar mais tempo à verificação e contextualização, num exercício cada vez mais exigente. A dúvida, tradicionalmente vista como um obstáculo, deverá passar a assumir um papel central. “A dúvida será o principal motor da actividade em vez de algo a ser eliminado”, conclui. 

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