Num momento em que o digital domina o consumo de informação, o media satírico francês Le Gorafi prepara-se para dar um passo em sentido inverso: a estreia no papel. Inspirado no modelo do norte-americano The Onion, o projecto pretende reduzir a dependência das plataformas digitais e conquistar novos leitores fora do universo dos algoritmos. 

Criado em 2012 por Sébastien Liebus, o Le Gorafi consolidou-se como uma das principais referências da sátira em França, reunindo cerca de sete milhões de seguidores nas várias plataformas. Agora, prepara o lançamento da sua primeira edição impressa: um jornal mensal de 16 páginas, com conteúdos totalmente originais, que será vendido por 6,99 euros. 

A iniciativa surge num contexto de renovado interesse pela imprensa escrita, incluindo no segmento satírico. O exemplo mais citado é o do The Onion, que relançou a sua edição em papel em 2024, tendo conquistado mais de 56 mil novos assinantes pagos e alcançado uma posição de destaque entre os jornais impressos nos Estados Unidos. 

Do hobby à referência satírica 

A génese do Le Gorafi remonta a experiências iniciais de escrita satírica realizadas por Sébastien Liebus em fóruns francófonos, ainda em 2004. A descoberta do The Onion, durante uma estadia em Nova Iorque, reforçou a ideia de que seria possível desenvolver um projecto semelhante em França. 

“O Le Gorafi começou como um hobby, sem plano de negócios. Tudo foi acontecendo de forma orgânica”, recorda o fundador ao The Fix. Mais de uma década depois, a publicação conta com uma rede de cerca de quinze colaboradores freelancers e uma audiência intergeracional, com especial incidência no público entre os 18 e os 35 anos. O nome do projecto, note-se, é um trocadilho com o diário francês Le Figaro

A aposta no papel não é apenas estratégica, mas também editorial. Segundo Liebus, a crescente dependência das redes sociais e dos seus algoritmos tem condicionado a actividade de media satíricos, frequentemente penalizados por sistemas automatizados incapazes de distinguir sátira de conteúdo problemático. 

Casos de publicações sinalizadas ou removidas por conterem palavras sensíveis (mesmo em contexto humorístico) têm sido recorrentes. “Os algoritmos e a inteligência artificial não compreendem a sátira”, sublinha, apontando episódios em que conteúdos foram mal interpretados pelas plataformas digitais. 

A edição impressa surge, assim, como uma forma de recuperar controlo sobre a linha editorial e garantir maior liberdade criativa. O objectivo passa também por proporcionar uma experiência de leitura mais imersiva, longe de notificações e interrupções constantes. 

Conteúdo exclusivo e novos desafios 

Ao contrário do que poderia ser expectável, a versão impressa não será uma simples compilação dos melhores conteúdos digitais. Pelo contrário, todo o material será inédito, uma decisão pensada para valorizar a subscrição e fidelizar leitores. 

O lançamento, contudo, não está isento de desafios. A equipa, sem experiência prévia na produção de jornais impressos, tem vindo a trabalhar em parceria com o diário regional La Dépêche du Midi para desenvolver o design e adaptar os conteúdos às exigências do formato. “Estamos a aprender a fazer um jornal. Nenhum de nós, na equipa, sabe como fazer um jornal, e é por isso que é tão emocionante e entusiasmante ver um jornal nascer e ser construído desta forma”, admite Liebus. 

O papel da sátira num mundo polarizado 

Num contexto mediático marcado por notícias negativas e crescente polarização, o fundador do Le Gorafi defende a importância da sátira como espaço de reflexão e alívio. “As pessoas precisam de se rir. Estamos aqui para trazer esse riso, que pode ser crítico, de apoio e reconfortante, mas acima de tudo, riso”, afirma. 

Ainda assim, reconhece os riscos associados à confusão entre sátira e desinformação. Para evitar ambiguidades, a publicação aposta em manchetes claras e inequívocas, procurando garantir que o leitor reconhece imediatamente o tom humorístico. “Não queremos criar pânico nem enganar o público. Se o fizéssemos, perderíamos rapidamente a sua confiança”, explica. 

Ao avançar para o papel, o Le Gorafi junta-se a uma tendência mais ampla de redescoberta da imprensa tradicional, mas fá-lo com um objectivo claro: preservar a liberdade criativa e reforçar a ligação directa com os leitores. 

(Créditos da imagem: Imagem retirada do site do The Fix)