Festival Internacional de Jornalismo debateu ameaças à liberdade de imprensa
A nona edição do Festival Internacional de Jornalismo, realizada de 11 a 13 de Julho em Couthures-sur-Garonne, França, ficou marcada pelas preocupações crescentes com a liberdade de imprensa. A figura de Donald Trump e a ascensão do jornalismo de opinião desvinculado de rigor factual dominaram os debates, que reuniram mais de três mil participantes.
Trump foi o epicentro de dois dos sete grandes temas do festival: o impacto da sua retórica na ordem mundial e a sua “cruzada contra a liberdade de informação”. Como explicaram especialistas como Maya Kandel, historiadora americana, e Pierre Haski, colunista da France Inter, o presidente norte-americano substituiu os media tradicionais pela sua própria plataforma, Truth Social, de onde lança mensagens que podem influenciar directamente a política internacional. Para ele, os media são inimigos da sua “guerra cultural”, travada em nome da suposta liberdade de expressão.
O debate sobre a situação francesa também esteve presente. A questão “Porque é que o jornalismo de opinião é tão popular?” provocou reflexões críticas sobre a transformação dos media num espaço onde a voz pessoal e a opinião se sobrepõem frequentemente aos factos. O historiador dedicado à imprensa, Alexis Lévrier, alvo de ameaças após criticar o canal CNews por não ter cumprido as suas obrigações de pluralismo, afirmou que a legitimidade da análise subjectiva vem crescendo em detrimento do jornalismo imparcial, apontando 2012 como um ponto de viragem, com a reorientação editorial da revista Valeurs Actuelles: “Estamos a regressar a um jornalismo de opinião obcecado por bodes expiatórios, semelhante ao dos anos 30, quando a figura do muçulmano substituiu a do judeu. Mesmo no Le Figaro, as páginas noticiosas estão a ser marginalizadas em favor das páginas de opinião, que consideram a realidade uma opinião como qualquer outra."
Essa transformação, segundo os participantes, é também resultado da concentração mediática em mãos de grandes grupos, como o de Vincent Bolloré, que controlam órgãos como Canal+, Paris Match e Le Journal du Dimanche. “Segundo os Repórteres Sem Fronteiras (RSF), pelo menos 500 jornalistas foram obrigados a assinar cláusulas de confidencialidade”.
No campo do jornalismo de investigação, os profissionais são alvo de acusações de “activismo”. "Esta crítica está a crescer cada vez mais porque é eficaz; permite-nos desacreditar a mensagem atacando o mensageiro", descreve Martin Boudot, jornalista e autor de documentários de investigação. Os jornalistas investigativos, como ele, veem-se frequentemente forçados a prever possíveis processos judiciais e a reservar fundos para honorários legais.
No festival, houve também espaço para defender o papel do jornalismo como serviço público e instrumento democrático. Para Marie Maurice, do programa Cash Investigation, o compromisso deve ser com um jornalismo “envolvente”, capaz de informar com profundidade, rigor e responsabilidade. Já Fabrice Arfi, do Mediapart, resumiu esse ideal com uma citação de George Orwell, aplaudida pela audiência: “Liberdade é dizer que dois e dois são quatro. Que nos seja dada, e o resto virá.”
(Créditos da imagem: CAMILLE MILLERAND/DIVERGENCE - captura de ecrã do site do Le Monde)