Para a CJR é mais importante o rigor do que a rapidez na informação
O regresso de Donald Trump à cena política e a disseminação de conteúdos criados por inteligência artificial veio desafiar a forma como o jornalismo deve actuar. “Distinguir o verdadeiro do falso, o que muitas vezes implica chamar a atenção para a informação falsa, corre o risco de amplificar e até legitimar essa informação”, refere um texto do Columbia Journalism Review.
Durante o primeiro mandato de Trump, a base de dados de verificação de factos do Washington Post registou 30 573 inverdades, uma taxa que não mostra sinais de abrandamento durante o segundo mandato. Rod Hicks, director de ética e diversidade da Sociedade de Jornalistas Profissionais, alerta que o princípio da imparcialidade e de ouvir ambos os lados, uma pedra basilar do jornalismo, torna-se ineficaz quando um dos lados mente sistematicamente: “Nem todos os lados merecem o mesmo peso. Na verdade, é enganar o público se dermos demasiado peso a algo que as provas dizem não ser válido. Pensamos que estamos a fazer o nosso trabalho ao seguir esta regra dos dois lados, mas na realidade não estamos."
Na era Trump, muitos meios continuaram a dar cobertura neutra a declarações comprovadamente falsas em nome do equilíbrio, algo que pode normalizar a desinformação em vez de a confrontar.
Steven Springer, que foi durante anos o editor de normas e melhores práticas da Radio Free Europe/Radio Liberty, observa que, embora seja difícil para as organizações noticiosas combater a quantidade de desinformação encontrada nas redes sociais, esta é agora também uma parte vital do trabalho de um jornalista.
O caso da foto manipulada de Kate Middleton, publicada pelo Palácio de Kensington em Março de 2024, mostrou que nem mesmo fontes oficiais são imunes à manipulação digital. O mesmo vale para o deepfake do Papa Francisco com um casaco Balenciaga. “Quando informações erradas como as que aparecem na foto de Kate Middleton e na foto do Papa Francisco são republicadas sem crítica por repórteres e editores, os jornalistas arriscam-se a perder a sua credibilidade. Em casos como este, as redacções que cobrem as falsificações têm de ser inteligentes na sua investigação e claras na sua linguagem quando descrevem o que aconteceu”, refere o artigo do CJR.
Estes episódios ilustram que os jornalistas precisam de verificar conteúdos visuais com o mesmo rigor com que verificam citações e devem ser transparentes, assumindo o erro quando são enganados.
“A nossa política, que é como que enfiada na garganta de todos, é que a exatidão está em primeiro lugar, e a rapidez - o timing - está em segundo lugar”, disse Eileen Drage O'Reilly, editora-chefe de normas e formação da Axios.
Com o avanço da tecnologia na criação de conteúdos falsos, também estão a surgir ferramentas para os combater. O “NewsGuard” é um exemplo que avalia a fiabilidade de sites. Para isso, conta com a ajuda de um grupo de dezenas de jornalistas que analisam a propriedade, o conteúdo e as operações dos sites. Além disso, investiga-se o uso de marcas de água em imagens geradas por IA, embora esta abordagem esteja “repleta de desafios significativos”. Em alternativa, sugere-se investir em literacia mediática, proteger os direitos de propriedade intelectual dos criadores e adoptar tecnologias que permitam rastrear a origem do conteúdo digital.
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