A mais recente edição dos “Cuadernos de Periodistas”, que assinala o 50º aniversário da publicação – editados pela APM, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria –, inclui um artigo de Víctor Lapuente, doutorado em Ciência Política e colunista no El País. O autor debruça-se sobre a desinformação, que considera ser o segundo maior perigo para as democracias. O primeiro é a forma como alguns governos tentam combatê-la. 

“Um a um, os autocratas do mundo aperceberam-se de que a melhor estratégia para se manterem no poder não é o controlo militar, mas o controlo da imprensa. Nenhum batalhão é mais letal do que canais de televisão subservientes. Nenhuma campanha é mais expedita do que as de intimidação para silenciar as vozes críticas”, conta. 

A história e os dados têm mostrado que as democracias mais saudáveis são também aquelas com uma imprensa mais livre. De acordo com Lapuente, “uma população informada sobre os mais pequenos excessos de poder impede a ocorrência de abusos maiores”. 

O autor defende que “a definição de desinformação não pode ser ‘aquilo que não gostamos de ler’”. A verdade é complexa e há temas que exigem debate e confronto de ideias, não silenciamento. 

Não se trata de negar a gravidade da desinformação, mas sim de recusar respostas autoritárias. No século XIX, o sensacionalismo dominou os quiosques e difundiu falsidades, como a suposta existência de uma civilização de homens-morcego na lua, uma história publicada no New York Sun em 1835. Mas esse modelo “baseado no exagero e na mentira” foi ultrapassado pela “pressão de uma cidadania cada vez mais crítica” e pela auto-regulação progressiva dos próprios media

“Com o tempo, o sensacionalismo acabou por dar lugar a um novo ideal de rigor e responsabilidade editorial, representado por órgãos de comunicação social como o New York Times, o Wall Street Journal e o Washington Post, que acabaram por se afirmar como referências de um jornalismo sério e fiável”, exemplifica Lapuente. 

O autor insiste que, para enfrentar a desinformação, é preciso sobretudo “reformarmo-nos a nós próprios”. Por um lado, é necessário um quadro jurídico que julgue crimes muito claramente definidos, como a pornografia infantil, o extremismo terrorista e os crimes de ódio que incitem explicitamente à violência. Por outro lado, os desafios da “realidade alternativa que as tecnologias da informação (da Internet à inteligência artificial) criaram, será necessário mais do que técnicas pontuais, como sistemas de verificação dos meios de comunicação social ou cursos de literacia digital nas escolas”. 

Lapuente menciona o psicólogo cognitivo Merlin Donald, que defende que a evolução humana foi fortemente influenciada pelo desenvolvimento das nossas capacidades de comunicação. Ao longo do tempo, os meios de expressão moldaram a forma como pensamos e compreendemos o mundo: inicialmente através da oralidade, depois pela escrita e mais tarde pelos meios audiovisuais. " Cada uma destas fases teve uma influência decisiva na nossa forma de distinguir entre o verdadeiro e o falso, redefinindo constantemente os critérios de credibilidade”. 

Actualmente, vivemos, segundo o autor, uma nova fase – a da mente digital, moldada pelo uso constante da Internet – embora ainda não haja uma definição clara sobre o que isso significa nem uma compreensão dos efeitos que tem na nossa cognição, percepção da realidade e construção do conhecimento. 

Segundo Michael Goldhaber, podemos estar a evoluir para uma nova subespécie, o Homo interneticus, caracterizado por comunicação sem filtros, presente contínuo e difusão irrestrita de ideias. A autoridade institucional enfraquece, a educação formal perde espaço e a atenção humana torna-se fragmentada. 

Tendo presente este cenário, Víctor Lapuente conclui com o seguinte pensamento: “Talvez o problema não esteja nos meios, mas nos fins da comunicação, naquilo que os cidadãos-consumidores desejam. Talvez o perigo não seja a sobrevivência da democracia, mas a da espécie humana. E isso é preocupante”. 

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