Como a “deriva autoritária” ameaça o humor gráfico no século XXI sem a metáfora da tesoura…
A censura ao humor gráfico não desapareceu com o fim das ditaduras clássicas nem com a consolidação das democracias liberais. Na verdade, transformou-se e adaptou-se aos tempos. No século XXI, deixou para trás a metáfora da tesoura, usada pelos cartoonistas dos séculos XIX e início do XX para denunciar cortes directos impostos pelo poder, e “o humor teve de adoptar outras metáforas para a representar e denunciar: o martelo de um juiz que transforma as piadas em questões legais, os sacos de dinheiro (ou bitcoins) que compram o silêncio ou as armas que intimidam”. Quem o diz é Francisco Segado Boj, num texto para os Cuadernos de Periodistas da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.
O professor de História da Comunicação parafraseia o cineasta Mel Brooks, que disse que a comédia é a arma mais rápida para derrubar fanáticos religiosos, ditadores e tiranos. É esta capacidade do humor que explica, segundo o texto, a hostilidade persistente das elites e dos governantes em relação aos humoristas. Perante essa pressão, quem cria humor “não tem outra alternativa senão resistir como pode, pois a sua única arma é o humor”.
O humor no banco dos réus
Uma das formas mais visíveis da censura contemporânea é a chamada “guerra jurídica”: o uso dos tribunais para intimidar, desgastar ou silenciar vozes críticas. Embora frequentemente associada a disputas políticas, esta estratégia é há muito conhecida dos cartoonistas, sob a forma de processos judiciais, queixas-crime ou injunções.
Em Espanha, vários autores e publicações foram alvo de acções judiciais por obras consideradas ofensivas. Entre os exemplos citados estão uma capa da revista Mongolia que satirizava a natividade cristã e o livro O Menino Jesus Não Odeia Gays, de Julio A. Serrano, cuja capa mostra Jesus crucificado segurando duas bandeiras LGBT. O texto sublinha que, independentemente do gosto ou do choque causado, “a vulgaridade, a rudeza ou o conteúdo escatológico não são crimes em si mesmos” e recorda que “o facto de um desenho nos ofender não torna automaticamente o seu criador num criminoso”.
A revista El Jueves surge como um dos casos paradigmáticos desta pressão judicial. Em 2007, uma capa que caricaturava os então príncipes espanhóis levou à apreensão da revista e à condenação dos ilustradores a uma multa de três mil euros cada, por alegado insulto à Coroa. A decisão judicial considerou a imagem “desnecessária e desproporcionada para a formação da opinião pública”. O episódio marcou profundamente o futuro da publicação e conduziu, segundo o texto, a uma lógica de autocensura corporativa para evitar novos conflitos legais.
Autocensura e interesses económicos
Outra forma crescente de censura é a pressão exercida por interesses empresariais, sobretudo em meios de comunicação integrados em grandes grupos económicos. Nos Estados Unidos, Donald Trump tornou explícita a sua intolerância à sátira, pressionando órgãos de comunicação e os seus proprietários para silenciar cartoonistas críticos.
O texto recorda o despedimento de Rob Rogers, cartoonista do Pittsburgh Post-Gazette durante mais de 25 anos, após a mudança de proprietários e de linha editorial do jornal, mais alinhada com o Partido Republicano. Mais recentemente, em 2025, a cartoonista vencedora do Prémio Pulitzer, Ann Telnaes, abandonou o Washington Post depois de o jornal ter recusado publicar uma caricatura que mostrava magnatas tecnológicos “prostrados em frente a uma estátua do presidente eleito, oferecendo-lhe sacos de dinheiro”.
Segundo o texto, a caricatura criticava a subserviência económica de figuras como Jeff Bezos, Mark Zuckerberg ou Sam Altman perante Donald Trump, num contexto de apoio financeiro à sua campanha eleitoral. A rejeição da obra levou Telnaes a demitir-se após 17 anos no jornal.
Violência física e intimidação
A forma mais extrema de censura ao humor gráfico continua a ser a violência física. O ataque terrorista à redacção do Charlie Hebdo, em Paris, em 2015, que provocou 12 mortos, permanece como um símbolo dos riscos enfrentados pelos cartoonistas. No entanto, o texto lembra que estes ataques não são novos: em 1977, a revista espanhola El Papus foi alvo de um atentado à bomba atribuído a um grupo de extrema-direita, causando cerca de duas dezenas de feridos e a morte de um porteiro.
Casos mais recentes incluem agressões físicas, ameaças e tentativas de assassinato, como o ataque ao cartoonista dinamarquês Kurt Westergaard ou as mãos partidas ao sírio Ali Ferzat por caricaturar Bashar al-Assad. Em 2016, em Espanha, a então editora do El Jueves, Mayte Quílez, foi agredida após uma reportagem satírica sobre a extrema-direita.
Na conclusão do texto, Francisco Segado Boj afirma o seguinte: “O poder detesta o humor. Talvez porque rompa com a sua solenidade, exponha as suas falhas e revele as suas misérias sem ambiguidade. A sátira é um mecanismo epistémico — torna visível o que o poder quer esconder — e um antídoto emocional — mantém a esperança e fomenta a coragem colectiva perante o medo. É por isso que o poder não tolera uma linguagem que, embora popular e directa, desafie a sua narrativa”.
Quando humoristas são “ostracizados, desempregados, levados aos tribunais ou, nos piores casos, presos ou mortos”, a “deriva autoritária” das sociedades fica às claras. Como alerta o texto, “nada de bom se pode esperar das sociedades que caminham nesse sentido”.
(Créditos da imagem: Imagem retirada do site dos Cuadernos de Periodistas)