A mais recente edição dos “Cuadernos de Periodistas”, que assinala o 50º aniversário da publicação – editados pela APM, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria –, inclui um artigo de Miriam Hernanz, jornalista e directora da Prisa Vídeo. O texto explora a transformação radical do jornalismo na era do vídeo e das redes sociais, usando o exemplo de Hugo Travers — o jovem francês por detrás do canal de Youtube HugoDécrypte — que, após anos de jornalismo nesta plataforma, entrou na Sala Oval com acreditação oficial e questionou Trump de forma incisiva: "Senhor Presidente, chamou ‘ditador’ a Zelensky, usaria a mesma palavra para definir Putin?". 

"HugoDécrypte é a concorrência actual dos meios de comunicação tradicionais. É o exemplo perfeito do facto de o conteúdo ser tão importante como a narrativa, a distribuição e, por conseguinte, a monetização. O jornalista de hoje tem de saber mover-se ao longo destes quatro eixos para atingir audiências de massas, e Travers é um mestre nisso”, considera Miriam Hernanz. De acordo com o Digital News Report 2024, Travers obteve mais referências dos franceses como fonte de informação do que Le Monde, Le Figaro e Libération juntos. 

Neste contexto, os meios tradicionais perdem relevância face a criadores independentes, que os algoritmos favorecem. Ainda assim, a autora salienta que “os meios de comunicação social não podem renunciar a estas grandes plataformas onde podemos pescar novos públicos, aqueles que entendem as notícias com uma visão muito mais ampla, desde as últimas notícias desportivas ou musicais até recomendações sobre gastronomia, viagens ou moda. O público quer encontrar tudo ali e descobrir, de acordo com os seus gostos, o produto personalizado que o algoritmo lhe pode oferecer”. 

Como sublinha Jelani Cobb, da Universidade de Columbia, “não estamos apenas numa crise de credibilidade; estamos também numa crise de credulidade”. O problema reside não só no facto de o público não confiar nos meios tradicionais, mas também no facto de confiar em fontes desonestas. 

A ascensão de criadores como Tucker Carlson, com milhões de seguidores no X, TikTok e YouTube, exemplifica como as plataformas estão a ser usadas para difundir “uma boa parte dos slogans conservadores e populistas nos Estados Unidos governados por Donald Trump”. 

Perante esta realidade, Hernanz defende que os media devem agir como agências de talentos, apostando na visibilidade e desenvolvimento das marcas pessoais dos seus jornalistas. Além disso, os meios de comunicação devem investir tempo na identificação das oportunidades por detrás de cada um dos talentos: os seus interesses e o acesso a fontes para que cada um dos nossos jornalistas cubra nichos de informação, ajudando-os a desenvolver a sua própria marca audiovisual. “Se não o fizermos com eles, muitos acabarão por fazê-lo por conta própria”, avisa. 

O artigo refere também casos como o de Dave Jorgenson, jornalista de vídeo responsável pela criação da conta de TikTok do Washington Post, ou Joss Fong, cofundador da conta de YouTube da VOX Media, que saíram de grandes redacções para criarem conteúdos visuais independentes e especializados, baseados em rigor jornalístico, mas com formatos novos, criativos e adaptados às plataformas digitais. 

“A multiplicação dos vídeos - cada vez mais gerados, cada vez mais consumidos - baseia-se no poder fascinante, sugestivo e cativante da imagem. Um poder de ligação que nós, no jornalismo, temos de saber utilizar”, defende Hernanz. O estudo do Reuters Institute referente a este ano demonstra que o consumo de vídeo está a aumentar em todo o mundo, tanto para entretenimento como para informação. Os inquiridos dizem que querem ver para crer. O vídeo oferece proximidade, humanidade e estímulo visual — algo valorizado pelos algoritmos e os cérebros das novas gerações. 

A jornalista alerta, no entanto, para o risco de fragmentação da atenção e o consumo acelerado de conteúdos superficiais, incentivado por formatos curtos, que podem “diminuir a nossa capacidade de concentração e de pensamento profundo”. Ao mesmo tempo, surgem perigos como a desinformação através do uso da inteligência artificial (IA) e os vídeos manipulados: “Tal como uma faca que se coloca em cima de uma mesa, a IA pode ser uma ferramenta muito útil ou uma arma destrutiva. Ainda não podemos avaliar a dimensão dos desafios colocados pelas inteligências artificiais que criam vídeos falsos. É claro que os media e os jornalistas terão de ser treinados para combater essa desinformação com armas semelhantes e apelando aos valores de credibilidade do mais puro jornalismo”. 

Ainda assim, Hernanz acredita no poder transformador do vídeo jornalístico quando usado com intenção. Exemplifica com a reportagem “Afeganistão, o país onde Alá abandonou as mulheres”, do El País, como prova de que “o vídeo pode ser uma ferramenta poderosa para revelar verdades complexas e emocionais”. E conclui: “O que não é visto, muitas vezes não é compreendido. Porque o que não é visto muitas vezes não é acreditado. Porque o que não é visto muitas vezes não existe”.

(Créditos da imagem: Unsplash)