A reconstrução da ligação entre o jornalismo e o dia-a-dia das comunidades pode estar a nascer em espaços inusitados: as redes sociais e os novos comunicadores que nelas se movem. A tese é defendida por Carlos Castilho, num novo artigo para o Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, que sustenta que a reinserção do jornalismo na vida das pessoas acontecerá “através do atendimento de necessidades informativas locais”, uma vez que é neste território de proximidade que se forma “uma simbiose entre indivíduos e o contexto social que os cerca”.

Castilho observa que esta transformação depende da presença de um novo tipo de actor comunicacional, tornado possível apenas após a consolidação da internet e dos computadores no quotidiano. Trata-se do influenciador, uma figura que, segundo o autor, se caracteriza por estabelecer “uma comunicação directa com as pessoas comuns sem usar as rotinas, regras e valores do jornalismo convencional”. A sua ascensão coincide com o aumento exponencial do volume de dados e acontecimentos disponíveis, incluindo em localidades que, até há poucos anos, eram autênticos “desertos informativos”. 

Os influenciadores locais ganham relevância por conquistarem rapidamente a confiança das comunidades, convivendo com elas “nas mais variadas situações”. Esta proximidade permite-lhes captar e difundir informação com uma agilidade que o jornalismo institucional nem sempre consegue igualar. Contudo, Castilho adverte que a ausência de critérios profissionais e de regulamentação faz proliferar conteúdos cuja fiabilidade é altamente variável. “Nem tudo o que os influenciadores publicam nas plataformas digitais pode ser tomado como certo”, escreve o autor, sublinhando o impacto crescente da “incerteza e insegurança informativa”. 

É precisamente neste ponto que o jornalismo pode desempenhar um papel crucial: ajudar as pessoas a “separarem o joio do trigo”, disponibilizando verificação, contexto e rigor. Esta complementaridade explica por que motivo alguns profissionais têm vindo a testar modelos de produção conjunta, combinando a presença ubíqua dos influenciadores com a capacidade técnica dos jornalistas para tratar informação. 

O autor destaca o projecto Documenters, lançado em 2017 em Chicago e replicado em mais 24 cidades dos Estados Unidos. Os influenciadores envolvidos recolhem e publicam dados sobre a actividade (ou omissão) de autoridades públicas e privadas. Em Chicago, cerca de 300 participantes monitorizam acontecimentos relacionados com a gestão municipal. A experiência, promovida pela organização City Bureau, exemplifica como a parceria entre cidadãos-informadores e profissionais da comunicação pode reforçar a fiscalização do poder e preencher lacunas deixadas pelo declínio dos media locais tradicionais. 

A influência destes actores intensifica-se durante campanhas eleitorais, quando o contacto directo com diferentes segmentos sociais os torna veículos privilegiados de circulação de mensagens políticas. Para muitas comunidades, os influenciadores substituem jornais extintos, rádios encerradas ou telejornais irrelevantes. Porém, a produção de informação por via autónoma e descentralizada leva inevitavelmente ao “caos informativo”: multiplicam-se boatos e manipulam-se emoções, enquanto se formam bolhas que reúnem pessoas que pensam da mesma maneira. 

Castilho vê neste fenómeno um risco real. A formação de comunidades fechadas fomenta a radicalização, como demonstram os estudos de Cass Sunstein em Going to Extremes. Nestas bolhas, as opiniões tornam-se mais extremadas e os contactos com visões divergentes reduzem-se ao mínimo. 

Para o autor, o jornalismo tem condições para actuar como mecanismo de equilíbrio. Os profissionais estão treinados para “fornecer dados para as pessoas tomarem decisões adequadas”, o que pode ajudar a mitigar os efeitos tóxicos da polarização. Mas Castilho sublinha que esta missão exigirá uma mudança cultural: os jornalistas terão de “interagir com influenciadores, especialmente no nível local”, oferecendo simultaneamente quantidade e qualidade informativa.

(Créditos da imagem: Pexels)