A “pseudo-media” e a dissolução da fronteira ética
Num artigo publicado nos Cuadernos de Periodistas da Asociación de Periodistas de Madrid, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria, Luis Núñez Ladevéze, jornalista e catedrático, explica que os “pseudo-media" surgem “quando a tecnologia permite aos indivíduos simular as suas fontes de informação, produzir de forma independente mensagens audiovisuais que antes exigiam grandes instalações e divulgá-las sem depender de empresas de distribuição”.
Nesse contexto, a desinformação floresce, alimentada pela falta de compreensão do que constitui reportagem e das práticas que distinguem informação de opinião, criando um ambiente em que “se nada puder ser verificado, não existe qualquer garantia regulada para estabelecer a credibilidade do repórter perante o leitor ou o público. A credibilidade da informação, a consistência das interpretações e a adequação das narrativas dependem da adesão a estas regras socialmente aceites”.
O jornalismo de serviço público historicamente procurou separar os factos da opinião, distinguir o essencial do incidental e garantir que a narrativa se mantivesse imparcial. Como recorda Ladevéze, “o paradigma é que os factos são o que são, sagrados e inflexíveis; as opiniões são livres. O desafio para os jornalistas é relatá-los tal como são, independentemente de quem possa ser prejudicado ou beneficiado pelo que relatam”.
A função ética do jornalista é, portanto, assegurar a veracidade da informação, respeitando o compromisso moral de não servir interesses pessoais, ideológicos, partidários ou comerciais. O filósofo Ortega y Gasset descreveu essa busca como um “empreendimento utópico”, reconhecendo que a perfeição é inatingível, mas que o esforço para cumprir a imparcialidade é obrigatório.
O texto também traça a história da ética jornalística no contexto do serviço público, destacando o papel da imprensa, rádio e televisão na consolidação de normas profissionais. A BBC é apresentada como modelo de independência institucional, cujos estatutos garantem que “a programação confiada a uma equipa profissional liderada por um director-geral não interfira no trabalho dos jornalistas”, protegendo a narrativa jornalística de interesses políticos, ideológicos ou financeiros.
Em Espanha, em contraste, a degradação da televisão pública levou à emergência de um “pseudo-serviço público”, no qual a programação passou a ser orientada por interesses comerciais e autopromoção, sem cumprir adequadamente os padrões de serviço público. Ladevéze observa que, nessa situação, “a autopromoção de programas privados na televisão pública introduz, sorrateiramente, compensações financeiras manipuladas, disfarçadas de patrocínio”, criando condições para o florescimento de pseudo-media.
A discussão sobre pseudo-media evidencia que a tecnologia permitiu que indivíduos produzissem conteúdos de forma independente, mas muitas vezes sem qualquer preocupação com ética ou verificação. Como escreve Ladevéze, “os utilizadores podem ocultar a sua identidade, personificar outros e divulgar informações cuja veracidade não pode ser verificada”.
Esta situação dilui a distinção entre profissional e amador, favorece a desinformação e compromete a aplicação das normas éticas: “A falta de especialização significou a evaporação do rigor no cumprimento de uma tarefa que exige o cumprimento de regras de aprendizagem e de distinções estabelecidas por uma profissão sujeita às exigências sociais. Se o comunicador não se submete a um código de ética, como acontece no serviço público, é irrazoável esperar que o receptor, agora um fornecedor de informação, seja mais exigente”.
O texto relaciona os pseudo-media com o populismo e as ideologias do cancelamento, argumentando que a desvalorização da verificação factual se tornou um mecanismo para manipular a opinião pública. Ladevéze explica que, nesse contexto, “o passo definitivo da subordinação do objectivo ao subjectivo ocorre quando um observador é forçado a aceitar um sentimento não verificável como expressão de identidade e é obrigado a rejeitar os sinais materiais que contradizem a identidade que é obrigado a reconhecer”.
A conjunção entre pseudo-media, populismo e cancel culture resulta num ambiente em que a informação factual é “obscurecida” por versões corrompidas, opiniões anónimas ou conteúdos manipulados, enfraquecendo o pluralismo e ameaçando os mecanismos democráticos.
Por fim, o autor defende que a solução não está em regulamentações excessivas ou controlo estatal, mas na protecção da ética jornalística e da liberdade de imprensa. Ladevéze afirma que “a liberdade não precisa de controlos. É preciso protegê-la de ‘veículos noticiosos pseudo-autoritários’ para evitar a confusão entre um serviço profissional de auto-regulação e aquilo que não é: informações distorcidas divulgadas por activistas que se aproveitam da situação para violar ou infringir as regras que definem o serviço”.
Acrescenta que “os princípios da ética profissional são firmes”, mas a tecnologia tornou-se um desafio, pois o anonimato, o oportunismo e a ocultação da autoria enfraquecem a aplicação dessas normas. A protecção do jornalismo exige, portanto, defesa contra intrusões, proliferação de pseudo-informação e manipulação populista, garantindo que a informação verídica continue a sustentar a democracia pluralista.
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