A “nova economia da atenção” e o seu impacto no jornalismo
Num texto para o Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, o jornalista e investigador Carlos Castilho argumenta que o jornalismo vive mais um "ciclo de rupturas com o modelo tradicional vigente há quase dois séculos”, provocado pela consolidação da era digital e, mais recentemente, pela introdução da inteligência artificial.
Segundo o autor, essa transformação insere o jornalismo numa modalidade de economia da atenção, um ambiente em que a atenção humana se torna um recurso escasso, decisivo para a sobrevivência de projectos informativos num contexto de abundância extrema de conteúdos, dados e estímulos.
Castilho explica que a economia da atenção não é um fenómeno novo. Já estava presente no surgimento do jornalismo moderno, em meados do século XIX, quando os Penny Papers transformaram a atenção dos leitores a base do modelo económico dos jornais, permitindo a redução do preço de capa e o financiamento da produção através da publicidade. No entanto, o autor sublinha que, na actualidade, essa lógica assume novas formas, pois a digitalização alterou profundamente os processos de produção, distribuição e consumo de notícias.
Na era digital, destaca Castilho, a atenção do público deixa de ser apenas um meio para atrair anunciantes e passa a ser o próprio produto comercializado. “Em vez de vender a atenção de leitores, ouvintes e telespectadores para anunciantes, o produto comercializado passou a ser as próprias audiências”, afirma. Plataformas como Facebook, Instagram e TikTok exemplificam esse modelo ao monetizar directamente as audiências, remunerando influenciadores e produtores de conteúdo em função da sua capacidade de gerar atenção. O mesmo processo começa a ocorrer no jornalismo online, com grandes grupos a disputar audiências de formadores de opinião como estratégia de sustentabilidade financeira.
O autor observa que esse novo cenário cria condições inéditas para o jornalismo independente, que já não depende exclusivamente da publicidade tradicional. O profissional autónomo precisa construir e fidelizar uma comunidade de leitores ou seguidores, estabelecendo uma relação baseada na confiança e na responsabilidade mútua. O jornalista assume o compromisso de responder às necessidades informativas do público, enquanto este passa a sustentar a continuidade do trabalho jornalístico.
Nesse contexto, segundo Castilho, “A notícia está a perder valor como commodity usada para atrair anunciantes e a transformar-se numa componente da produção de conhecimento socialmente relevante, responsável pela formação do capital social de uma comunidade”.
Por fim, o autor destaca a transformação do papel profissional do jornalista, que passa a actuar cada vez mais como curador de dados, tutor no uso da informação e investigador de factos, especialmente num ambiente dominado por plataformas digitais. Contudo, Castilho alerta para os riscos desse modelo: à medida que profissionais e comunidades crescem, as políticas de monetização das plataformas tendem a transformar a atenção novamente em mercadoria, convertendo jornalistas e audiências em produtos, repetindo, em versão digital, dinâmicas já conhecidas na “era analógica do jornalismo”.
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