Qual é a métrica certa para medir o sucesso de uma organização de notícias? Começa por questionar um artigo do Nieman Lab. Esta foi a questão central de um painel de líderes de meios de comunicação sem fins lucrativos, sobretudo locais e de pequena escala, durante a conferência anual INN Days, promovida pelo Institute for Nonprofit News. 

Os participantes explicaram como pensam, acompanham e comunicam o sucesso às suas comunidades e aos financiadores. As abordagens são distintas, passando da tradicional medição das métricas de alcance (como visualizações de páginas ou prémios) para uma avaliação centrada no impacto real nas comunidades servidas. 

Salientamos as experiências de alguns meios de comunicação que se fizeram representar na conferência. 

Charlottesville Tomorrow 

“O nosso objectivo não é salvar o jornalismo. O nosso objectivo é criar algo útil e vital para a nossa comunidade”, disse Angilee Shah, directora executiva do Charlottesville Tomorrow. 

Servindo uma comunidade de cerca de 400 mil pessoas, o Charlottesville Tomorrow mede o impacto das suas publicações não pelo tráfego online, mas pelas acções concretas geradas nas comunidades locais. 

A redacção recebe cerca de 130 notas de leitores por dia e criou um sistema interno para atribuir pontuações de impacto às interacções, numa escala de 1 a 5: 

  1. Gratidão ou reconhecimento; 
  1. Impacto num indivíduo; 
  1. Acção individual resultante; 
  1. Acção colectiva; 
  1. Mudança na comunidade (como legislação ou orçamento do município). 

O Charlottesville Tomorrow está a construir um painel de controlo interno que destacará as pontuações de impacto, e não apenas métricas como visualizações de páginas para as suas histórias. 

Shah critica a dependência em métricas quantitativas: “Se você gasta a maior parte do seu tempo no painel do Google Analytics, isso mede o quanto a sua comunidade valoriza o seu trabalho ou o quão bom você é em aumentar o tráfego na Web?” 

Para além disso, contesta as exigências de métricas padronizadas de financiadores. “Ser grande na pesquisa do Google nunca vai ser o que nos dá sustentabilidade, ou o que nos torna úteis para as comunidades que estamos a servir”, disse. 

Baltimore Beat 

Com apenas quatro funcionários a tempo inteiro, o Baltimore Beat aposta em parcerias locais e criativas para medir o seu impacto — desde colaborações com jovens designers até iniciativas comunitárias como as “caixas Beat”, que, para além de conterem exemplares impressos do jornal, funcionam como espaços de troca de recursos (alimentos, testes COVID ou de despistagem de drogas, etc.). O artigo apresenta algumas das parcerias: 

  • Wide Angle Youth Media: jovens desenham o jornal impresso; 
  • Museu de Arte de Baltimore: eventos culturais em homenagem a Freddie Gray; 
  • Cervejaria local: lançou uma cerveja chamada The Beat Goes On, revertendo 1€ por garrafa para a organização. 

Invisible Institute 

Focado na má conduta policial em Chicago, o Invisible Institute considera o impacto como algo que altere estruturas de poder ou políticas públicas. “Dizemos frequentemente nos nossos relatórios de subsídios que medimos o impacto pensando no efeito que tivemos na política e na prática”, disse Maira Khwaja, directora de estratégia pública do Invisible Institute

A organização acredita que a criação de um impacto duradouro em Chicago requer “o trabalho sustentado de acompanhamento” - ajudar os membros da comunidade a procurar justiça, incluindo ligando-os a recursos legais oferecidos por outras organizações. 

Em 2016, a propósito da publicação de uma investigação sobre tráfico de drogas e polícias corruptos, foram anuladas mais de 212 condenações “graças a relacionamentos sustentados com as pessoas na história e ao apoio jurídico de organizações como o The Exoneration Project”. Uma outra investigação de condenação injusta, em 2020, introduziu novas provas no caso de Robert Johnson, que foi entretanto libertado há alguns meses. 

Ainda assim, Khwaja reconhece que o modus operandi do Invisible Institute não vai ao encontro das exigências dos financiadores. Os conselhos de administração das fundações geralmente ainda querem ver métricas de crescimento e prémios e as organizações sem fins lucrativos de notícias devem equipar os oficiais do programa da fundação para fazer um caso que vai ressoar para “obter esse financiamento novamente.” 

Open Campus 

O Open Campus colabora com 16 redacções locais e criou um sistema para “monitorizar o impacto tangível a nível individual, comunitário e institucional”.  

Os repórteres preenchem pequenos formulários que registam o impacto pelo menos uma vez por mês. Colleen Murphy, editora, revê os registos, muitas vezes acrescentando mais informação, e transforma-os em narrativas. Para além de um relatório anual de impacto, ela compila resumos trimestrais de impacto para a equipa, os financiadores, as redacções dos parceiros e o público, e cria relatórios de impacto específicos para os parceiros. 

Na conferência, a editora relatou alguns exemplos de impacto gerado pelo Open Campus. Um artigo levou leitores a pagar 10 mil dólares de dívida estudantil de uma jovem. Uma reportagem sobre o campus da Universidade de Indiana levou antigos residentes desalojados a restabelecem contacto uns com os outros através das redes sociais. E quando um repórter do Texas Tribune cobriu uma jovem mãe que cuidava de uma criança, trabalhava durante a noite numa lavandaria e frequentava a faculdade a tempo inteiro, os leitores perguntaram como podiam fazer doações espontâneas para a apoiar.

(Créditos da imagem: Unsplash)