Adolescentes americanos consideram os “media” tendenciosos
A percepção negativa dos adolescentes norte-americanos sobre o jornalismo está a intensificar-se, revela um novo relatório do News Literacy Project, que analisou as atitudes de jovens entre os 13 e os 18 anos. Segundo o documento, 84% dos inquiridos descrevem os media noticiosos com termos negativos, desde “falsa” e “louca” a “tendenciosa” e “chata”.
O relatório, intitulado “Preconceituosos, Chatos e Ruins”: Desvendando as percepções dos adolescentes americanos sobre os media e o jornalismo”, mostra um cenário preocupante para o sector, sobretudo numa altura em que cada vez mais organizações de notícias dependem do público para garantir sustentabilidade financeira.
Desconfiança generalizada
Cerca de metade dos adolescentes acredita que os jornalistas “inventam detalhes, como citações” e que “pagam pelas fontes”. Quando questionados sobre o que profissionais poderiam melhorar, mais de um terço respondeu que bastaria “dizer a verdade”, “verificar os factos” e “não mentir”.
45% dos jovens consideram que os jornalistas prejudicam a democracia mais do que a protegem. E 67% dizem estar “um pouco” ou “nada” preocupados com o declínio das organizações de notícias.
Além disso, 80% afirmam que o jornalismo profissional não é mais imparcial do que outros tipos de conteúdos online.
Os adolescentes, contudo, reflectem uma tendência mais ampla: entre os adultos norte-americanos, apenas 28% dizem confiar muito ou razoavelmente nos media jornalísticos — e entre republicanos esse valor cai para 8%, segundo dados recentes da Gallup.
Uma das conclusões do relatório é que muitos adolescentes têm dificuldade em distinguir jornalismo, opinião e publicidade. Essa confusão é alimentada por um ambiente mediático fragmentado, em que as notícias chegam frequentemente através de redes sociais, partilhas de amigos ou da televisão.
O estudo também mostra que os jovens não têm uma referência clara quando lhes é pedido que pensem em “jornalismo”: podem imaginar o The New York Times, o Breitbart, a CNN, a Fox News ou até criadores de conteúdo desconhecidos que surgem no feed das redes sociais.
Questionados sobre representações de jornalistas na cultura popular, apenas 32% conseguiram citar algum filme ou série. As respostas mais comuns incluíram Homem-Aranha e Anchorman, “retratos pouco lisonjeiros da profissão”.
A necessidade de literacia jornalística
Mary Robb, professora de Estudos Sociais na Andover High School, disse ao Nieman Lab que o cinismo não surpreende. Há 25 anos a ensinar literacia jornalística, Robb considera que capacitar os estudantes para analisar criticamente as notícias é “uma lição cívica essencial”.
“A capacidade de distinguir entre jornalismo baseado em padrões e outros tipos de informação é uma das principais lições que espero que os meus alunos aprendam”, afirmou. Outras competências essenciais incluem “optar por ser consumidores activos” e saber “desconstruir as mensagens dos media”.
Robb revelou ter ficado especialmente tocada por um dado da pesquisa: apenas 56% dos adolescentes acreditam que os jornalistas valorizam padrões como rigor, precisão e imparcialidade. “Essa estatística magoou o meu coração”, confessou a professora. Segundo ela, tais percepções costumam vir de estudantes expostos sobretudo a fontes sensacionalistas.
Quando os jovens começam a dominar técnicas de literacia noticiosa, observa, apercebem-se de que “há muito mais jornalistas e organizações que levam esses padrões a sério do que pensavam inicialmente”.
O relatório recomenda que pais e educadores incentivem o contacto directo com jornalistas profissionais e, idealmente, que os estudantes participem em projectos e programas de jornalismo para compreenderem o rigor necessário na produção de informação de qualidade.
(Créditos da imagem: imagem retirada do site do Nieman Lab)