Perante a capacidade que a inteligência artificial (IA) tem de transformar a produção e distribuição de conteúdos, vários meios de comunicação estão a apostar numa estratégia aparentemente simples: aproximar os jornalistas dos leitores. É esta ideia que Lucía González desenvolve num artigo publicado nos Cuadernos de Periodistas, editados pela APM, parceira do CPI. 

Dar um rosto às notícias, mostrar os bastidores das redacções e fortalecer a relação directa entre repórteres e audiências está a tornar-se uma das principais formas de reforçar a confiança num ambiente cada vez mais saturado por conteúdos automatizados. 

"A confiança não se automatiza", resume Gastón Roitberg, secretário de redacção do jornal argentino La Nación. "Temos de investir em pessoas, em jornalistas, porque é aí que está o nosso principal factor de diferenciação." 

No The Athletic, publicação desportiva do The New York Times, a construção de marcas pessoais tornou-se parte da estratégia editorial. "No The Athletic, os jornalistas individuais costumam ser o principal ponto de ligação com os leitores", explica Claudio Cabrera, vice-presidente de Audiência da publicação. "Num modelo de assinatura, a confiança constrói-se tanto com o jornalista como com a marca." 

Segundo o responsável, o objectivo nunca foi competir entre a notoriedade dos repórteres e a identidade do meio. "A nossa abordagem consiste em alinhar as marcas pessoais com a força da empresa", afirma. "Quando um jornalista cresce, a publicação também cresce." 

Essa aposta passa igualmente pela formação das equipas. Mais de 80 jornalistas participaram recentemente num programa interno dedicado à produção de vídeo para plataformas digitais. "O programa abrange os fundamentos da produção de vídeo móvel, desde a gravação e o enquadramento até à narrativa no terreno", explica Cabrera. 

Embora alguns profissionais acabem por abandonar a empresa, levando consigo parte da audiência, considera que os benefícios superam os riscos. "Se queremos que os nossos jornalistas tenham relevância, temos de aceitar que também construam a sua própria relação com o público." 

Para Madeleine White, cofundadora da plataforma The Audiencers, o futuro passa por tornar o processo jornalístico mais transparente. "Durante muito tempo, os meios de comunicação encararam o público como uma massa, e não como indivíduos", afirma. 

Na sua perspectiva, a mudança de paradigma é inevitável. "Hoje já não competimos apenas uns com os outros. Competimos contra uma força externa: a inteligência artificial." 

Por isso, considera que as redacções devem concentrar-se naquilo que os algoritmos não conseguem reproduzir. "A forma de sobreviver é apoiarmo-nos naquilo que a IA não consegue fazer: construir relações humanas reais e com um propósito." 

Segundo White, isso passa por abrir as redacções aos leitores, explicar como as notícias são produzidas, responder a dúvidas e envolver as comunidades no processo editorial. 

Vídeo reforça a proximidade 

Uma das ferramentas que mais tem contribuído para essa aproximação é o vídeo. Cada vez mais jornalistas surgem diante das câmaras para explicar notícias, contextualizar acontecimentos ou mostrar os bastidores das redacções. 

"O vídeo é cada vez mais importante como narrativa, pela sua capacidade de distribuição, pelo seu apelo e pelo seu poder de criar laços com o público", afirma Gastón Roitberg. 

Pierre Caulliez, fundador da agência Yoof e responsável pelo programa News Creator Exchange da WAN-IFRA, acredita que essa familiaridade se constrói ao longo do tempo. 

"O vídeo com jornalistas identificáveis cria familiaridade", afirma. "Quando vemos repetidamente as mesmas pessoas, começamos a conhecê-las e a confiar nelas." 

Segundo o especialista, muitas redacções ainda encaram a presença em vídeo como um talento inato. "As pessoas continuam a pensar que estar à vontade diante de uma câmara é algo que se tem ou não se tem. Mas isso aprende-se." 

Por isso, defende que as empresas invistam em formação e permitam que os jornalistas experimentem novos formatos. "A chave é criar um ambiente onde as pessoas sintam que podem tentar, falhar e melhorar." 

Construir comunidades 

Para além da aposta na imagem dos jornalistas, vários meios procuram criar comunidades em torno de interesses específicos. É o caso do jornal espanhol La Nueva España, que lançou o projecto "Asturias Exterior", destinado aos asturianos que vivem fora da região. 

"O objectivo era ligar pessoas que estavam dispersas e criar uma comunidade em torno da identidade asturiana", explica Román García, director de Estratégia Digital do jornal. 

Os resultados reflectiram-se também no consumo de conteúdos. "O tempo de leitura duplicou relativamente ao de outras secções", afirma. 

Também o jornal regional espanhol La Rioja decidiu mostrar o funcionamento interno da redacção através das redes sociais. "O leitor agradece não ver uma empresa de comunicação, mas sim jornalistas, pessoas", afirma Inés Martínez, responsável pelas redes sociais da publicação. 

Segundo a jornalista, o público demonstra um interesse crescente pelos bastidores do trabalho editorial. "Subestimamos o fascínio que pode suscitar o dia a dia de uma redacção." 

Apesar da rápida evolução tecnológica, os especialistas consideram que a vantagem competitiva do jornalismo continuará a residir na relação humana. Mais do que produzir conteúdos rapidamente ou recorrer às ferramentas mais avançadas de inteligência artificial, os meios de comunicação procuram distinguir-se através da transparência, da proximidade e da credibilidade. 

Como resume Gastón Roitberg, "a confiança não se automatiza". E acrescenta: "Podemos automatizar muitos processos, mas nunca conseguiremos automatizar a relação entre um jornalista e o seu leitor." 

(Créditos da imagem: Unsplash)