Etiópia endurece restrições e expulsa correspondente do jornal “La Croix”
A jornalista francesa Augustine Passilly, correspondente do jornal francês La Croix na Etiópia desde 2023, foi obrigada a abandonar o país após as autoridades etíopes revogarem a sua acreditação de imprensa e autorização de residência, noticiou o Le Monde. A decisão gerou críticas entre organizações de defesa da liberdade de imprensa e da direcção do próprio jornal.
A repórter, de 30 anos, recebeu ordem para deixar o território etíope até 18 de Junho, mas acabou por partir no dia 11. Embora as autoridades não tenham utilizado formalmente o termo “expulsão”, o La Croix considera que a medida corresponde, na prática, a uma expulsão do país.
Segundo relatou à agência AFP, Passilly encontrava-se na região de Tigray, no Norte da Etiópia, quando foi convocada pela autoridade reguladora da comunicação social.
“Suspenderam temporariamente a minha credencial e informaram-me sobre uma investigação que deveria durar alguns dias”, explicou a jornalista. Dias mais tarde, foi chamada pelos serviços de imigração e informada do cancelamento da acreditação e da autorização de residência, ambas válidas até Setembro.
RSF manifesta-se sobre o caso
A decisão foi rapidamente condenada pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), que vê no caso mais um sinal do agravamento das condições para o exercício do jornalismo no país: “Esta é mais uma violação da liberdade de imprensa na Etiópia”, afirmou Sadibou Marong, director dos RSF para a África Subsaariana.
Segundo o responsável, a expulsão da correspondente francesa “ilustra mais uma vez até onde as autoridades estão dispostas a ir para censurar informações e controlar o acesso às mesmas”.
Marong recordou ainda que cinco jornalistas etíopes permanecem detidos devido ao seu trabalho e apelou ao governo etíope para reverter a decisão.
Também a direcção do La Croix ficou perplexo perante a medida: “Esta é uma decisão incompreensível, um ataque à liberdade de imprensa”, afirmou Thomas Hofnung, director da redacção internacional do jornal, acrescentando que “Augustine Passilly não infringiu nenhuma regra. Ela foi a Tigray para fazer uma reportagem, particularmente sobre o recrutamento forçado na região”.
Crescentes restrições aos correspondentes estrangeiros
O caso surge poucos meses depois de as autoridades etíopes terem recusado renovar as credenciais de três correspondentes da agência Reuters.
A Etiópia, o segundo país mais populoso de África, com mais de 130 milhões de habitantes, é governada desde 2018 pelo primeiro-ministro Abiy Ahmed. A sua chegada ao poder foi inicialmente recebida com entusiasmo pela comunidade internacional, após a libertação de opositores políticos e jornalistas e a implementação de reformas que lhe valeram o Prémio Nobel da Paz em 2019.
No entanto, algumas organizações de defesa dos direitos humanos têm denunciado um crescente endurecimento do regime nos últimos anos. No mais recente Índice Mundial da Liberdade de Imprensa da RSF, a Etiópia ocupa o 148.º lugar entre 180 países avaliados, descendo três posições face ao ano anterior.
A expulsão da correspondente acontece num momento de crescente instabilidade em Tigray, região que foi palco de uma guerra devastadora entre 2020 e 2022.
(Créditos da imagem: Magali Cohen / Hans Lucas - imagem retirada do site 20 Minutes)