RSF alertam jornalistas para riscos na cobertura do Mundial
Num alerta dirigido aos profissionais da comunicação social, os Repórteres Sem Fronteiras (RSF) chamam a atenção para os riscos relacionados com a liberdade de imprensa, vigilância digital, controlos fronteiriços e segurança dos jornalistas durante a cobertura do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026, sobretudo nos Estados Unidos e no México.
A preocupação surge num contexto em que os Estados Unidos registaram a sua pior classificação de sempre no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa da RSF, enquanto o México continua a figurar entre os países mais perigosos do mundo para o exercício do jornalismo.
“Os jornalistas que viajam para cobrir o torneio devem poder concentrar-se no jogo e nos acontecimentos que o rodeiam, e não nos riscos de intimidação ou interferência enquanto exercem a sua profissão”, sublinha a organização.
Entrada no país: o primeiro desafio
As autoridades fronteiriças norte-americanas mantêm amplos poderes para realizar controlos adicionais, interrogar viajantes ou mesmo recusar entradas, independentemente da existência de vistos válidos, acreditações ou autorizações de viagem.
Por esse motivo, a organização recomenda que os jornalistas informem previamente as suas redacções sobre os itinerários, estabeleçam procedimentos de emergência e conheçam os seus direitos em caso de retenção ou interrogatório.
Os profissionais que habitualmente cobrem temas considerados sensíveis — como imigração, política, protestos ou relações internacionais — poderão estar sujeitos a um escrutínio acrescido.
Vigilância digital e inspecção de dispositivos
A organização recorda que as autoridades norte-americanas podem inspeccionar dispositivos electrónicos na fronteira, incluindo telemóveis, computadores portáteis, mensagens, correio electrónico e actividade nas redes sociais.
Assim, é recomendado aos jornalistas que removam informação sensível dos equipamentos antes da viagem, encerrem sessões de contas não essenciais e desactivem métodos de autenticação biométrica, como reconhecimento facial ou impressões digitais.
Além disso, a realização do torneio em grandes áreas metropolitanas poderá implicar o recurso a sistemas avançados de vigilância, incluindo câmaras inteligentes, drones, tecnologias de reconhecimento facial e localização de dispositivos móveis.
Os RSF alertam particularmente os profissionais que pretendam desenvolver reportagens para além da cobertura desportiva, sobretudo em áreas relacionadas com criminalidade organizada, migração, corrupção ou actuação das forças de segurança.
Protestos e operações policiais exigem atenção redobrada
Outro dos pontos destacados pela organização prende-se com a cobertura de protestos, operações policiais ou acções relacionadas com imigração durante o período do Mundial.
Embora a acreditação oficial tenha como objectivo facilitar o trabalho dos jornalistas, nos últimos anos vários repórteres nos Estados Unidos foram detidos, multados ou impedidos de trabalhar enquanto cobriam manifestações, apesar de estarem devidamente identificados.
A organização considera provável um aumento da actividade da Agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) durante o torneio e alerta para potenciais situações de discriminação racial ou acções direccionadas a populações vulneráveis.
Por essa razão, recomenda que os jornalistas transportem sempre documentação de identificação e confirmem previamente que possuem a categoria de visto adequada para exercer actividade profissional.
México continua a ser uma das maiores preocupações
Os RSF recordam que o país continua a registar elevados níveis de violência contra profissionais da comunicação social, particularmente em coberturas relacionadas com crime organizado, corrupção ou política local.
A recomendação passa por trabalhar em estreita articulação com contactos locais de confiança e evitar deslocações desnecessárias para áreas de risco fora dos principais centros urbanos e zonas associadas ao torneio.
Planeamento e preparação são fundamentais
Perante um cenário complexo, a organização aconselha os jornalistas a prepararem a cobertura do Mundial com o mesmo rigor aplicado a reportagens de maior sensibilidade.
Entre as recomendações estão a partilha prévia de itinerários com editores, a identificação de apoio jurídico local, a criação de cópias de segurança encriptadas dos materiais de trabalho e a definição de planos de contingência para situações de detenção ou confisco de equipamentos.
Os RSF sublinham ainda que os procedimentos policiais, os sistemas legais e os protocolos de emergência variam significativamente entre os três países anfitriões, tornando essencial o estabelecimento prévio de redes de contactos locais.
Durante o torneio, a organização solicita que qualquer caso de intimidação, obstrução ao trabalho jornalístico, vigilância abusiva, uso excessivo da força ou detenção arbitrária seja comunicado para efeitos de monitorização da liberdade de imprensa.
(Créditos da imagem: RSF)