Quando se testemunha a mudança completa de um ecossistema de Informação para outro…
A ascensão do chamado “jornalismo de criadores” está a transformar profundamente a indústria da informação e poderá representar a maior disrupção alguma vez enfrentada pelos meios de comunicação social tradicionais. A ideia foi defendida por Deborah Turness, antiga directora-executiva da BBC News, numa conferência realizada em Londres dedicada ao futuro dos media.
Turness afirmou que o sector noticioso atravessa uma mudança estrutural sem precedentes, marcada pela passagem de um modelo centrado em grandes instituições mediáticas para um ecossistema dominado por personalidades independentes, plataformas digitais e relações directas com o público.
“Esta não é apenas mais uma etapa facilitada pela tecnologia numa história de progresso dos media. O que estamos a testemunhar é a mudança completa de um ecossistema de informação para outro”, declarou.
Segundo a antiga responsável da BBC News, os meios tradicionais continuam a olhar para a transformação digital como uma mera mudança de plataformas, quando, na realidade, está em causa uma alteração muito mais profunda na forma como as pessoas consomem e escolhem informação.
“Os media tradicionais ainda não perceberam que esta revolução não se resume à migração dos consumidores para outras plataformas. Trata-se de uma escolha por formas mais directas de jornalismo num universo mediático cada vez mais fragmentado”, afirmou.
Turness considera que os consumidores estão progressivamente a substituir a relação institucional com jornais e televisões por uma ligação emocional e personalizada com jornalistas, comentadores e criadores independentes. Essa tendência tem sido impulsionada pelo crescimento de plataformas como o YouTube, o Spotify, o TikTok e o Substack.
No discurso, a antiga CEO da BBC destacou casos de figuras mediáticas que construíram audiências gigantescas fora dos media tradicionais, como Joe Rogan, Tucker Carlson, Megyn Kelly ou Mehdi Hasan.
“Se durante anos nos perguntámos o que acabaria por substituir o modelo tradicional de notícias televisivas, penso que estamos agora a ver a resposta”, afirmou. “Estas novas formas de jornalismo estão a absorver o tempo, a lealdade e a confiança que os consumidores costumavam investir nos grandes veículos noticiosos.”
Deborah Turness argumenta que a principal força deste novo modelo está na percepção de autenticidade. Ao contrário da comunicação institucional mais formal e controlada das grandes organizações mediáticas, os criadores independentes oferecem uma linguagem mais próxima, espontânea e opinativa.
“O sucesso neste novo mundo é impulsionado pela autenticidade, independência e opinião”, explicou. “Tudo isto cria uma experiência individual e uma maior ligação humana.”
Ao longo da intervenção, Turness reconheceu que esta realidade representa um desafio particularmente difícil para organizações que assentaram historicamente na ideia de imparcialidade editorial. Ainda assim, considera que os meios tradicionais terão de encontrar formas de equilibrar rigor jornalístico com maior proximidade humana.
A antiga directora da BBC defendeu mesmo que as empresas de comunicação social precisam de “libertar os seus talentos”, permitindo que jornalistas desenvolvam relações directas com as audiências através de newsletters, podcasts, vídeos e redes sociais.
“Os órgãos de comunicação social necessitarão de aceitar que, no futuro, a ligação com os consumidores deverá fluir através de uma relação mais directa com os seus talentos”, afirmou.
Como exemplo, sugeriu um modelo em que o público pudesse seguir individualmente correspondentes e especialistas dentro das próprias plataformas noticiosas, recebendo conteúdos personalizados, análises, newsletters e sessões de interacção directa.
Segundo Turness, muitos jornalistas já estão a abandonar os grandes grupos de media para criarem projectos independentes, motivados pela possibilidade de controlar directamente as suas audiências e receitas. Entre os exemplos citados estão Piers Morgan, o ex-apresentador da CNN Don Lemon e Amol Rajan.
Para a antiga CEO da BBC News, esta mudança está também ligada ao declínio da confiança nas instituições tradicionais, tendência que associa à crise financeira de 2008, à polarização política, à expansão das redes sociais e à proliferação de desinformação.
Citando dados do Reuters Institute for the Study of Journalism, Turness recordou que a confiança global nas notícias caiu de 51% em 2015 para 35% no último ano.
Durante a sua passagem pela BBC News, Deborah Turness procurou inverter essa tendência através de iniciativas focadas na transparência editorial e na verificação de factos. Entre elas, destacou o lançamento do BBC Verify, criado para mostrar ao público os bastidores do processo jornalístico e reforçar a credibilidade da informação.
Apesar dos alertas, Turness rejeita uma visão pessimista sobre o futuro do jornalismo profissional. Pelo contrário, acredita que o sector pode entrar numa “nova era dourada”, desde que os meios tradicionais sejam capazes de se reinventar profundamente. “Os veículos noticiosos tradicionais possuem todos os recursos e credibilidade necessários para responder e prevalecer”, afirmou.
Entre as prioridades apontadas pela antiga responsável estão a reconstrução da confiança pública, a adaptação a formatos digitais e sociais, a reorganização das redacções para modelos digital-first e a criação de espaços de debate que combatam as actuais câmaras de eco alimentadas pelos algoritmos.
“Acredito que os media tradicionais têm a oportunidade de se tornarem a nova praça pública”, declarou.
Na parte final da intervenção, Deborah Turness deixou um aviso claro sobre os riscos da inércia. “Esta revolução já se tem vindo a anunciar há muito tempo”, afirmou. “Mas ainda vamos a tempo de nos juntarmos a ela.”
(Créditos da imagem: Pexels)