O cerco à liberdade de imprensa
No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, celebrado recentemente, o Papa Leão XIV denunciou a frequente violação deste direito em todo o mundo, “por vezes de forma flagrante e outras vezes de forma oculta” e recordou os inúmeros jornalistas vítimas de conflitos e de violência.
No mesmo tom preocupado, António Guterres aproveitou a efeméride para lembrar que “em todo o mundo, os profissionais da comunicação social enfrentam os riscos de censura, vigilância, assédio legal e até a morte”.
Mais perto, António José Seguro associou-se ao evento com uma nota divulgada pela Presidência na qual reconhece que “uma imprensa livre é, por definição, um contrapoder. Uma voz que questiona, que investiga, que não se dobra ao poder nem se rende ao aplauso fácil”.
Esta unanimidade de posições entre o Papa, o secretário geral da ONU e o Presidente da República confirma a existência de uma realidade agravada, ano após ano, vivida pelos jornalistas empenhados na sua missão de informar.
Só no ano passado, foram assassinados no mundo 129 jornalistas e profissionais da comunicação social, o que, para Seguro, “não é uma estatística. É uma acusação”, enquanto enfatizou que “quando uma voz jornalística se cala por medo, por impossibilidade económica ou por captura, não é apenas ela que perde. Perdemos todos”.
São palavras bonitas, sem dúvida, que afagam o ego de quem as ouve e libertam as consciências de quem as profere. O problema, porém, é sentir no dia seguinte que essas mesmas palavras já parecem gastas e subvertidas pela dinâmica dos acontecimentos ou pela vertigem dos conflitos que alastram imparáveis.
O jornalismo sempre foi uma profissão de risco e de desgaste rápido. Mas piorou com o tempo e mesmo em países que se intitulam democráticos já sofreu e sofre sérios reveses.
É frequente ouvir-se que a liberdade de imprensa é o "termómetro" de uma democracia. Se assim for, o mundo está a enfrentar uma febre perigosa. A verdade é que informar nunca foi tão tecnologicamente fácil e, ao mesmo tempo, tão politicamente arriscado.
O perigo hoje é duplo. Existe a ameaça física — o jornalista que é silenciado por uma bala numa zona de guerra ou por uma prisão arbitrária num regime ditatorial. Mas existe, também, uma ameaça mais subtil e insidiosa nas democracias: a asfixia económica e o assédio judicial.
Quando os tribunais são usados para levar jornais à falência com processos intermináveis, ou quando a precariedade empurra os profissionais para a autocensura, a liberdade morre em silêncio.
Defender a liberdade de imprensa não é defender um privilégio de uma classe profissional. É defender o direito de cada um de nós saber o que acontece nos corredores do poder. Sem uma imprensa livre, restam-nos apenas as versões oficiais — e essas, raramente coincidem com a realidade.
A pergunta que fica não é se a tecnologia vai salvar o jornalismo, mas se nós, enquanto sociedade, ainda valorizamos a verdade o suficiente para a proteger.
O amorfismo, o encolher de ombros, a indiferença são a porta escancarada para a instalação das tiranias. O desafio que em muitos casos se coloca hoje à sociedade é esta perder a sua própria voz.