Jornalistas iranianos procuram ultrapassar vácuo de informação
Um artigo publicado pelo Instituto Reuters aborda os enormes desafios enfrentados por jornalistas iranianos exilados ao tentarem cobrir a situação no Irão durante o maior bloqueio de internet alguma vez imposto pelo regime. A análise assenta em testemunhos de profissionais que, a partir do estrangeiro, procuram informar sobre protestos e repressão num contexto de isolamento informativo quase total.
Os acontecimentos ocorreram com protestos generalizados no início de 2026, motivados por dificuldades económicas, mas rapidamente transformados numa contestação política mais ampla à liderança clerical no Irão. A resposta das autoridades incluiu um bloqueio quase total da internet e, em muitos casos, das comunicações telefónicas, isolando a população do resto do mundo e dificultando a circulação de informação.
Segundo a jornalista Negar Mortazavi, iraniana radicada nos EUA, editora e apresentadora do Iran Podcast, e investigadora sénior no Center for International Policy (CIP), o regime tem vindo a desenvolver, ao longo dos últimos anos, uma infraestrutura digital que lhe permite desligar selectivamente a internet para controlar a narrativa interna e externa. Como explica, o objectivo é duplo: impedir a coordenação de protestos e atrasar a divulgação de informação para o exterior. Ainda assim, sublinha que “não há forma de impedirem que a cobertura chegue aos jornalistas no estrangeiro”, podendo apenas atrasá-la. “Há também a questão da partilha de informação dentro do país. Se as pessoas não têm acesso à televisão por satélite e as comunicações são cortadas, é difícil para elas saberem que estão a decorrer protestos, especialmente se estiverem em pequenas cidades ou zonas rurais”.
Rieneke Van Santen, directora da Zamaneh Media, uma organização de comunicação iraniana no exílio, com sede em Amesterdão, considera este o cenário mais grave de censura já registado, afirmando que a população está “completamente isolada”. Já a jornalista freelancer radicada em Paris e colaboradora frequente da BBC, Asal Abasian, destaca a sofisticação crescente da repressão, que combina apagões, limitação de velocidade, ciberataques, desinformação e intimidação legal e extralegal, criando um clima de medo generalizado.
Para os jornalistas exilados, reportar nestas condições torna-se extremamente difícil. Dependem de ferramentas encriptadas, redes da diáspora, imagens de satélite e métodos de verificação de fontes abertas, mas o bloqueio impede muitas vezes qualquer contacto com fontes no terreno. O jornalista Omid Rezaee escreve para o jornal alemão Zeit e descreve a situação de forma clara: “com este tipo de bloqueio da internet, o jornalismo no exílio simplesmente pára”. Durante os primeiros dias, os repórteres ficaram limitados a informações provenientes de meios estatais ou a raros testemunhos de pessoas que conseguiam sair do país.
O jornalista Roozbeh Bolhari, radicado nos Estados Unidos que trabalhou para órgãos como a Rádio Farda, a Voz da América e actualmente a Iran International, relata igualmente a dificuldade em contactar a sua rede de fontes e o medo generalizado dentro do país, com cidadãos receosos de partilhar informação devido à vigilância intensificada. Mesmo quando algum contacto é restabelecido, muitos testemunhos são dados com grande cautela.
Para além das dificuldades técnicas, os jornalistas exilados enfrentam formas de repressão transnacional, incluindo assédio digital, campanhas de difamação, ameaças físicas e pressões sobre familiares que permanecem no Irão. Mortazavi refere ter sido alvo de campanhas de trolls e ameaças directas, enquanto Rezaee descreve ataques constantes de phishing e tentativas de intrusão nas suas contas, que se tornaram parte do quotidiano.
Este ambiente cria também desconfiança dentro da própria diáspora e fragiliza o ecossistema informativo. Como observa Rezaee, quando os jornalistas são silenciados, “os vácuos de informação são preenchidos por teorias da conspiração e interesses políticos”, prejudicando o jornalismo baseado em factos.
Apesar de tudo, os meios de comunicação no exílio continuam a procurar alternativas para informar o público iraniano. A Zamaneh Media, por exemplo, recorreu à rádio de ondas curtas para contornar os bloqueios digitais, uma tecnologia difícil de censurar. Outras estratégias incluem o uso de VPNs, sites espelho e o recurso a testemunhos de pessoas que atravessam fronteiras levando informação em dispositivos móveis.
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