Arquivos digitais com recurso a IA como contraponto a regimes hostis
Em vários países onde a liberdade de expressão se encontra sob ataque, o jornalismo independente luta para sobreviver. A Inteligência Artificial (IA), frequentemente vista como uma ameaça às redacções tradicionais, está agora a ser usada como ferramenta de resistência cívica. O projecto Kronika demonstra como a tecnologia pode tornar-se aliada de jornalistas cujos trabalhos são sistematicamente apagados pelos seus governos.
A jornalista russa Anna Nemzer é um desses exemplos. Depois da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, viu o seu país mergulhar numa nova vaga de censura militar. “As autoridades russas estavam a fazer de tudo para destruir o registo histórico, as provas, o trabalho que os jornalistas independentes têm vindo a realizar há mais de 20 anos”, afirmou ao The Fix. Foi essa ameaça de desaparecimento que motivou a criação da RIMA, um arquivo digital destinado a salvaguardar artigos de meios independentes.
Segundo Nemzer, “o primeiro objectivo era simplesmente preservar este registo histórico”. Mas rapidamente se aperceberam de que o problema ultrapassava as fronteiras russas. “Jornalistas independentes de outros países procuraram-nos com o mesmo pedido, dizendo que precisavam do mesmo ficheiro para o seu trabalho”, explicou. Assim, profissionais do Afeganistão, Irão, Bielorrússia, Hungria ou Guatemala passaram a recorrer ao projecto.
Da RIMA ao Kronika
A evolução natural da RIMA culminou na criação do Kronika, apresentado em Outubro de 2025. Inspirado na publicação clandestina soviética Uma Crónica dos Acontecimentos Actuais, o projecto pretende defender o jornalismo independente e a memória pública em risco em qualquer parte do mundo.
De acordo com um responsável da Kronika, que preferiu manter o anonimato, a prioridade actual é “a extracção, análise e armazenamento de suportes independentes”. A equipa guarda conteúdos de sites ameaçados ou já inacessíveis, recupera dados de dispositivos offline e reconstrói artigos em formatos legíveis, aproximando-os da experiência original do leitor.
IA usada com cautela
Apesar de trabalhar com IA, a equipa mantém uma posição prudente. “Adoro a IA, mas não gosto dela em todo o lado”, afirmou o mesmo responsável. Para tarefas críticas, como a extracção de conteúdos, considera arriscado depender totalmente de modelos automáticos: “Queremos preservar o conteúdo original. (…) Imagine que um jornalista escreveu um artigo e cometeu um erro de digitação. (…) Há uma grande probabilidade de a IA pensar: ‘Ok, vou corrigir isso’, e aí não teríamos a certeza de que o conteúdo foi preservado da forma como estava antes”.
Por isso, a IA é usada sobretudo para “funções auxiliares”, como pedir ao modelo sugestões sobre como criar ferramentas não baseadas em IA. O objectivo é que esta tecnologia ajude a trabalhar o arquivo, por exemplo, através de resumos ou mecanismos avançados de pesquisa, sem interferir com a integridade dos textos originais.
Um dos desafios actuais é o desenvolvimento de um assistente de investigação fiável. “Queremos garantir que, quando um utilizador fala com o nosso assistente, recebe as respostas correctas. Esse é o problema”, explicou. A equipa recorre a sistemas de RAG (Retrieval-Augmented Generation), que obrigam o modelo a basear-se nos documentos reais do arquivo. Mesmo assim, manter a precisão requer “ajustes constantes”, dispendiosos em tempo e recursos.
Além dos desafios tecnológicos, a sustentabilidade financeira é outra questão central. O projecto conta com apoio do Bard College e da PEN America, mas procura diversificar parcerias conforme os países de origem dos meios com que colabora. A esperança, sublinha Nemzer, é que o arquivo possa continuar mesmo que o desenvolvimento abrande: “Espero sinceramente que, pelo menos, estes dados não desapareçam”.
A preservação digital torna-se um acto de resistência. “Lidar com a memória e com este tipo de dados dá à sociedade a oportunidade de pensar e reflectir sobre si própria”, afirmou Nemzer. “É muito óbvio porque é que os autocratas procuram apagá-la e privar as pessoas destes mecanismos.”
(Créditos da imagem: Freepik)