A escritora britânico-turca Elif Shafak recebeu, no dia 5 de Novembro, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2026, numa cerimónia realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. 

O júri distinguiu a autora de A Ilha das Árvores Perdidas e 10 Minutos e 38 Segundos neste Mundo Estranho pela capacidade de dar vida, através da literatura, à diversidade e à complexidade da identidade cultural europeia. A sua escrita foi assinalada como uma ponte entre o passado e o presente e como um manifesto em defesa dos valores democráticos, da solidariedade e do cosmopolitismo. 

No comunicado do júri, Elif Shafak é homenageada pela “contribuição excepcional para a preservação e celebração do património cultural comum da Europa, tangível e intangível, através do poder da literatura”. 

No discurso de aceitação, a escritora mostrou-se comovida com a distinção e centrou a intervenção no papel da cultura e da narrativa na actualidade. Sublinhou que o compromisso do prémio em sensibilizar o público para o património cultural e literário se tornou “ainda mais importante e necessário no mundo fragmentado de hoje”. 

Reafirmou ainda a convicção no poder das histórias para preservar a memória colectiva, celebrar a diversidade e aproximar as pessoas, ultrapassando divisões culturais e geracionais. Deixou também um “mais sincero e profundo agradecimento” ao júri, composto por representantes do Centro Nacional de Cultura, da Europa Nostra e do Clube Português de Imprensa, e frisou o carácter especial de receber um galardão com raízes europeias. 

A premiada foi apresentada pela jornalista e escritora Anabela Mota Ribeiro. A sessão contou com intervenções de Guilherme d’Oliveira Martins, em representação da Fundação Gulbenkian, de Maria Calado, presidente do Centro Nacional de Cultura, e de Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa. A condução esteve a cargo de Sneška Quaedvlieg-Mihailović, secretária-geral da Europa Nostra. 

Uma obra traduzida em 58 línguas 

Multipremiada, Elif Shafak publicou 21 livros, 13 dos quais romances, traduzidos para 58 línguas. A Ilha das Árvores Perdidas, editado em Portugal pela Editorial Presença, foi finalista do Prémio Costa para Romance, dos British Book Awards, do RSL Ondaatje Prize e do Women’s Prize for Fiction, e foi seleccionado para o clube de leitura de Reese Witherspoon. 

10 Minutos e 38 Segundos neste Mundo Estranho, também da Presença, foi nomeado para o Booker Prize e para o RSL Ondaatje Prize, e eleito Livro do Ano pela Blackwell. The Forty Rules of Love integrou a selecção da BBC dos 100 romances que moldaram o mundo, e The Architect’s Apprentice foi escolhido pela The Queen’s Reading Room. 

Também há rios no céu, igualmente editado pela Presença, venceu em 2025 o Prémio Edward Stanford e o Prix Fragonard de Littérature Étrangère, foi finalista do Prix Femina Étranger e do Prémio Orwell de Ficção Política e recebeu recentemente o Prix Lorientales. O mais recente romance da autora, In One Brief Moment All Eternity, já se encontra publicado no Reino Unido. 

Percurso académico e distinções 

Doutorada em Ciências Políticas, Shafak leccionou em universidades da Turquia, dos Estados Unidos e do Reino Unido, incluindo o St Anne’s College, da Universidade de Oxford, onde é membro honorário. É doutora honoris causa em Letras Humanas pelo Bard College e fellow do programa Public Humanities da School of Advanced Studies, em reconhecimento do seu trabalho na definição do futuro das Humanidades Públicas. 

É membro e presidente da Royal Society of Literature e foi incluída pela BBC entre as 100 mulheres mais inspiradoras e influentes. Foi distinguida pelo Ministério da Cultura francês com o grau de Cavaleira da Ordem das Artes e das Letras e, em 2017, o POLITICO escolheu-a como uma das doze pessoas “que lhe darão aquele ânimo de que tanto precisa”. Recebeu o Prémio Internacional de Literatura Halldór Laxness pela contribuição para “a renovação da arte de contar histórias” e, em 2024, a Medalha do Presidente da Academia Britânica, pelo “seu excelente conjunto de obras, que demonstra uma incrível amplitude intercultural”. 

Defensora dos direitos das mulheres, dos direitos LGBTQ+ e da liberdade de expressão, participou duas vezes no TED Global e colabora com publicações de todo o mundo. Integrou o júri de vários prémios literários, incluindo o Prémio PEN Nabokov, e presidiu ao Prémio Wellcome. 

Um prémio em memória de Helena Vaz da Silva 

Instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura, em parceria com a Europa Nostra e o Clube Português de Imprensa, o prémio é atribuído anualmente em homenagem à jornalista e activista cultural Helena Vaz da Silva. Distingue cidadãos europeus que se destacam na protecção e na difusão do património comum. Em 2025, o galardão foi atribuído à pianista portuguesa Maria João Pires.

(Créditos das imagens: David Rouge)