Uma jovem jornalista foi homenageada na sala do Senado do Parlamento por ter sido a vencedora da primeira edição do Prémio Mário Soares Liberdade e Democracia, graças a um trabalho de investigação, que demorou dois anos, e que foi materializado numa série de artigos editados numa plataforma digital, sob o título genérico "Arquivos de Media - Memória Sem Garantia de Preservação”.

O enquadramento do prémio instituído pelo Parlamento, louvando a memória de Mário Soares, na oportunidade do centenário do seu nascimento, é simples e constitui um desafio para quem tenha obra publicada, jornalística ou académica, sob o signo da liberdade e democracia.

O tema escolhido pela jornalista vencedora, Sofia Craveiro, é sensível e tem sido escassamente debatido. Com o desaparecimento de vários jornais - e outros em vias disso -, com um histórico respeitável, e uma importante memória guardada nos seus arquivos, tal facto deveria ser gerador de preocupações, designadamente, por parte dos poderes públicos.

Em Lisboa e Porto perdeu-se o rasto dos arquivos de jornais que marcaram o seu tempo e que, nalguns casos, representavam um acervo único, enquanto retrato época, fundamental para a pesquisa de estudiosos vindouros.

A vencedora não se limitou, aliás, ao problema da preservação dos arquivos em suporte papel, alargando o âmbito das suas reflexões para a ausência de uma estratégia eficaz na protecção da memória no jornalismo online.

E fê-lo no discurso lido na cerimónia de entrega do prémio, ao apelar aos deputados para que "garantam que o jornalismo digital fica para a posteridade; garantam que no futuro ninguém poderá reescrever a História com a simples alteração de uma data ou uma vírgula numa página web".

"Este cenário – lembrou ainda Sofia Craveiro - deixou há muito de estar nos livros de George Orwell e é cada vez mais uma realidade que nos vemos forçados a enfrentar". E tem razão.

Recorde-se que este Prémio Mário Soares partiu da iniciativa do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, com o objectivo de distinguir actividades ou trabalhos centrados nos valores defendidos pelo antigo primeiro-ministro e Chefe de Estado.

Uma ideia meritória à qual se associou o Clube Português de Imprensa, que integrou o Júri a convite do Parlamento.

As dificuldades das empresas de media são conhecidas, e o mercado tem vindo a sofrer, nos últimos anos, um significativo emagrecimento, implicando a maior precariedade no emprego de jornalistas, além de exercer uma pressão crescente sobre os profissionais, forçando o seu envolvimento em compromissos comerciais, em tudo contrários ao seu estatuto.

Cruzam-se, por isso, no espaço mediático, vários factores relevantes para o futuro. Mas, independentemente das incógnitas que poderão perfilar-se, nada legitima uma certa apatia com que se despreza o passado, como se este fosse descartável ao sabor das conveniências do momento. 

O trabalho premiado tem, pois, a virtude de ser um alerta para quem não se limita a conviver com a espuma dos dias. E confia ou exige que todo o futuro - seja qual for - não prescinda do passado, em formato de arquivo impresso ou digital. Tão pouco de um Museu de Imprensa no Porto, fechado há anos sem alternativa à vista.