O grande desafio em cenário de conflitos
Desde a Venezuela à Sérvia, ou das Honduras à Hungria, as restrições à liberdade de imprensa são múltiplas e manifestam-se, por vezes, através de sofisticados esquemas, incluindo a apropriação accionista dos media mais incómodos.
É compreensível, por isso, que o relatório anual dos Repórteres Sem Fronteiras (RSF), divulgado recentemente, seja mais pessimista em relação à sorte do jornalismo, ao apontar um retrocesso em vários países, incluindo nos EUA, a partir do segundo mandato de Trump.
Mesmo em Portugal já se registam episódios insólitos, como foi o caso relatado pelo jornal “Região de Leiria”, que não se conformou - e bem -, com as exigências da organização do concerto de Andrea Bocelli, realizado naquela cidade, que quis ter acesso a todas as imagens captadas no evento, numa espécie de “exame prévio”, ao qual o jornal não se submeteu, optando por não publicar nenhuma foto.
O caso foi, entretanto, participado pelo Sindicato dos Jornalistas à ERC, enquanto se congratulou com a decisão editorial do “Região de Leiria”, ao denunciar a intolerável tentativa de intromissão da produção do concerto, considerando-a “uma forma inaceitável de controlo da informação“.
São sinais que não devem ser menosprezados com um encolher de ombros, numa altura em que se avolumam as incertezas em relação ao futuro da Imprensa e se agrava a precariedade profissional nas redacções.
Por essas e por outras é que Portugal tem vindo a descer no índice dos RSF, tendo perdido o estatuto de “boa” liberdade de imprensa, passando a merecer apenas uma ambígua classificação de “satisfatório”.
Numa nova era de conflitualidade renascida na Europa, e envolvendo guerras em variados palcos pelo mundo, o jornalismo rigoroso e a independência dos media são duas das principais garantias para a sobrevivência da democracia. É esse o grande desafio.