O papel do jornalismo em sociedades polarizadas não é combater de um lado da barricada, é ajudar a que todos possam voltar a conversar no espaço público pois sem essa conversa não existe democracia.

É sabido que, seja qual for o momento, existe sempre uma espécie de ortodoxia, no fundo um corpo de ideias que se assume que as pessoas de bom senso aceitarão sem questionar. Não é que seja proibido dizer o contrário, mas fica mal fazê-lo. Pior: quem quer se desafie a ortodoxia prevalente acaba silenciado com uma eficácia surpreendente.

Esta frase não é minha – é uma adaptação livre de uma passagem do prefácio que George Orwell escreveu para Animal Farm (A Quinta dos Animais na mais recente tradução portuguesa), um prefácio que não foi publicado na altura e só seria redescoberto em 1972. Neste texto ele critica a forma como tanto a imprensa popular britânica como a erudita não se afastavam da ortodoxia então dominante (o livro foi publicado em 1945, no final da II Guerra) que considerava de mau tom qualquer critica à União Soviética e aceitava como boas evidentes mentiras propagadas por Moscovo. É uma reflexão muito interessante sobre liberdade de imprensa e tem sido repescada por estes dias a propósito das polémicas que envolvem a BBC. Muito interessante e muito actual.

Tenho quase 50 anos de jornalismo (comecei em 1976) e trabalhei em redacções muito diferentes, com meios muito diferentes, e também usando diferentes plataformas. Vi o mundo do jornalismo mudar, e não apenas porque a tecnologia evoluiu – vi esse mundo mudar porque aquilo que era a natureza inicial da minha profissão se alterou, assim como se alterou o lugar que ela ocupa na sociedade e no funcionamento de democracia.

Quando eu comecei a trabalhar os jornalistas ainda eram os que divulgavam as notícias, os repórteres os que reportavam, e dar informação ainda era o nosso exclusivo, ou quase. Esse mundo acabou, e não acabou apenas por causa da Internet e das redes sociais – acabou porque a multiplicidade de fontes de informação dispensa muitas vezes a intermediação jornalística e acabou porque os próprios jornalistas começaram a interpretar o seu papel não sobretudo como mediadores, mas como “interpretadores”.

Neste quadro a realidade descrita por Orwell tornou-se ainda mais evidente, eu diria mesmo mais radical e dramática. Àquele que era o vicio original – há notícias a que se dá mais destaque do que a outras porque são as que “encaixam” na ortodoxia – acrescentou-se a preocupação missionária: já não bastava informar, era necessário educar.

De alguma forma a BBC – a sacrossanta BBC – é um bom exemplo de como uma missão original (os estatutos da BBC, vindos do tempo em que nasceu como rádio, incluíam a missão de educar os cidadãos) se transformou numa quase militância. O importante já não é fazer documentários sobre história ou vida selvagem, o importante é promover a ortodoxia da elite instruída. E se essa ortodoxia de repente alinha com o wokismo, que tal criar (como a BBC criou) um “LGBT desk” encarregue de assegurar que nada ofende, ou micro-ofende, as identidade “oprimidas”? O resultado, ficámos agora a conhecer através do mesmo relatório interno que identificou a manipulação do vídeo sobre Trump, foi a omissão de todo o tipo de notícia ou reportagem que colocasse em dúvida a ortodoxia trans.

O que se passou e está a passar na BBC é especialmente interessante porque a estação britânica não padece dos mesmo males, ou pelo menos não padece no mesmo grau de demência, de outras estações públicas de televisão que se têm tornado, ou nunca deixaram de ser, meros instrumentos de propaganda dos governos de turno (o caso recente mais escandaloso é o da nossa vizinha Espanha, onde a manipulação pró-governamental da TVE atingiu o nível do obsceno). E é interessante por reflectir essa regra social de que há coisas que se podem dizer e outras de que não se pode falar, mesmo que não exista nenhum telefonema de um ministro a dizê-lo.

Reflictamos um pouco na realidade portuguesa, que não foge a este padrão. Pode-se falar de imigração? Sim, se for para recordar o muito que os imigrantes contribuem para a segurança social. Pode-se falar de insegurança? Sim, se for para insistir que os números oficiais mostram que não há crescimento da criminalidade. Pode-se falar de lei laboral? Sim, se algures na reportagem vier uma referência a “perdas de direitos dos trabalhadores”? Há 200 jovens a manifestarem-se pelo clima, há reportagem. Há alguns milhares a manifestarem-se contra a liberalização do aborto, não há reportagem, ou há num registo “olha que ridículos que eles são”.

Podia continuar a dar exemplos, mas todos temos bem presente a forma como o Chega é tratado. Por um lado, as portas estão sempre escancaradas para André Ventura, porque sempre que ele aparece as audiências aumentam. Por outro lado, quando participa em debate, “perde” sempre na avaliação dos comentadores, que, ainda em Maio, o colocaram em último lugar enquanto davam a medalha de ouro a… Pedro Nuno Santos.

Porque é que isto acontece? Porque a tal ortodoxia condena André Ventura e proscreve as suas ideias, pelo que não é de bom tom reconhecer, seja em que circunstância for, que ele pode estar a falar de um tema importante – ele ou o presidente da câmara de Loures, já agora.

Ora esta ortodoxia está especialmente presente na redações, tanto em Lisboa como em Londres.

Primeiro, porque num tempo em que está mais do que diagnosticada a existência de um divórcio entre as elites educadas e a população mais afastada dos centros do poder, as redacções fazem mais depressa parte do microcosmo dessas elites educadas (estudaram nas mesmas universidades, circulam nos mesmos meios, têm referências culturais idênticas) do que das faixas da população, e do eleitorado, sem acesso aos círculos do poder.

Depois porque, num tempo em que percebemos que há linhas de factura que dividem os eleitorados entre patriotas e globalistas, ou entre tradicionalistas e wokes, os jornalistas por regra acabam a acentuar essas clivagens, colando-se do “lado correcto” e considerando que devem bater-se pelas causas e pelos valores “certos”, sem atenderem a que assim podem estar a alienar as suas audiências.

(Recentemente, quando escrevi um artigo a que chamei O jornalismo está a suicidar-se. E isso é grave para a democracia em que já chamava a atenção para este divórcio, Manuel Carvalho respondeu defendendo que “em causas que estão sob ameaça dos programas de Donald Trump ou de André Ventura, o jornalismo não pode ser neutro” – ou seja, deve ser empenhado, para não dizer militante.)

Por fim, e mesmo sem irmos para casos extremos, a verdade é que as mesmas redacções que andaram a verificar se tinham as percentagens correctas de jornalistas LGBT ou de jornalistas de minorias étnicas nunca se interrogaram sobre as preferências políticas das suas equipas. Ainda agora, a propósito da crise da BBC, não faltou quem se interrogasse sobre se haveria no seu staff alguém que votasse no Reform de Nigel Farage, o partido que lidera as sondagens, assim como quem recordasse que no dia em que Margaret Thatcher se demitiu o ambiente na redação lembrava o da libertação de Paris em 1944…

Naturalmente que, depois, o resultado em termos de credibilidade é terrível. Nos Estados Unidos, onde estes estudos são realizados com regularidade, só 28% da população acredita que os órgãos de informação trabalham de forma equilibrada e justa, uma percentagem que desce para 8% entre os eleitores republicanos – nunca os números foram tão maus em 50 anos de inquéritos à opinião pública.

As consequências para a indústria são catastróficas, mesmo havendo outros factores de pressão, nomeadamente os que afectam o modelo de negócio: entre 2006 e 2021 o número de jornalistas nos Estados Unidos caiu de 365 mil para 104 mil, uma redução de 70%, e nem tudo foi por culpa da internet e das redes sociais, onde as empresas de media também presentes. Para além disso, uma das áreas que tem sido mais afectada é da actividade de “fack-cheking”, porque pura e simplesmente os leitores deixaram de acreditar nessas “verificações da verdade”. Empresas como a PolitiFact, a FactCheck.org ou a Snopes começaram a despedir jornalistas.

É também por isso é que é errado culpar as redes de todos os nossos males, a começar pelas “fake news”. Ou pensar que formas tradicionais de abordar os problemas vão ter eco entre a audiência ou influenciar a opinião dos eleitores. Estudos realizados em países como a Hungria, a Ucrânia e a Itália mostram que o caminho tem de ser outro – tem de ser contar histórias com conteúdo humano, histórias em que as pessoas se possam reconhecer, histórias que não têm de ser a preto e branco e que, antes ou em vez de tirarem conclusões, obriguem a reflexões.

Infelizmente, como sabemos, continua-se a caminhar na direcção errada. Em vez de procurar dar contexto, dão-se lições de moral. Em vez de conversar, criam-se ambientes que vivem da polarização e do choque. No curto prazo até pode dar audiências. No longo prazo só agravará não apenas a crise dos órgãos de informação, como resultará exactamente no contrário do defendido pelos piedosos educadores do povo: em mais polarização e mais extremismos.

É no que dá seguir a ortodoxia e esquecer Orwell. Ou então preferir-lhe Platão, sendo que aqui os jornalistas se vêem como “filósofos-reis”, capazes de educar a maioria ignorante, aquela que vive na caverna e nunca viu a luz. Pode ser tentador, mas acabará por ser fatal.

(Publicado originalmente no jornal Observador)