Quando o Wall Street Journal dá uma “cacha” sobre a parceria Canadá-UE
A revelação do Wall Street Journal sobre a estratégia de Mark Carney para aproximar o Canadá da União Europeia teve uma cobertura relativamente limitada nos media portugueses. Entretanto, Ursula von der Leyen propôs que o Canadá seja o primeiro “membro associado” da UE, uma aproximação que poderá redefinir a relação entre o bloco europeu e um país terceiro.
Quando o Wall Street Journal revelou, a 13 de Setembro, que o primeiro-ministro canadiano Mark Carney estava a explorar a possibilidade de transformar o Canadá num “membro associado” da União Europeia, a notícia não teve, no espaço mediático português, a dimensão que a natureza da proposta poderia fazer supor. A maior parte da cobertura surgiu apenas depois de Bruxelas transformar a hipótese numa proposta política concreta.
Segundo o jornal norte-americano, Carney vinha mantendo, há meses, conversações privadas com vários líderes europeus sobre formas de integrar mais profundamente o Canadá na economia europeia, numa altura em que as relações com os Estados Unidos atravessam uma das fases mais tensas da sua história recente.
A ideia não passaria pela adesão plena à União Europeia nem ao mercado único. O objectivo seria criar uma fórmula de associação que permitisse ao Canadá uma integração mais profunda em sectores estratégicos, nomeadamente energia, inteligência artificial, minerais críticos, defesa e tecnologia.
O Canadá e a UE estarão a analisar formas de aproximar as suas cadeias de abastecimento, desenvolver infraestruturas conjuntas e facilitar a circulação de bens, serviços e, potencialmente, pessoas. Entre as possibilidades discutidas estão cabos submarinos entre a Europa e o Canadá, centros de dados, infraestruturas de computação em nuvem e redes de satélites.
A energia assume também um papel central. Carney pretende aumentar a capacidade do Canadá para exportar gás natural para a Europa, enquanto os dois lados procuram reforçar a segurança energética e reduzir dependências estratégicas. Os minerais críticos canadenses são outro dos sectores em que existe interesse numa aproximação.
Na área da investigação, a estratégia passa por uma maior ligação entre instituições canadianas e europeias, incluindo a possibilidade de reforçar a participação do Canadá em programas europeus de intercâmbio académico. O objectivo seria criar redes de investigação e inovação capazes de competir num contexto em que tanto a Europa como o Canadá procuram reduzir a dependência tecnológica dos Estados Unidos.
A União Europeia e o Canadá estão ligados pelo Acordo Económico e Comercial Global (CETA), enquanto nos últimos meses foram também reforçados os mecanismos de cooperação em matéria de defesa e segurança.
O primeiro-ministro canadiano chegou a apresentar aos seus interlocutores europeus a possibilidade de o país assumir a designação de “membro associado” da UE, uma categoria que ainda não existe nos tratados europeus.
Durante o discurso sobre o Estado da União, em Estrasburgo, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, dirigiu-se directamente a Carney e propôs que o Canadá se torne o primeiro “membro associado” da União Europeia.
Este estatuto de “membro associado” não está previsto nos tratados da UE e teria de ser definido jurídica e politicamente pelos Estados-Membros. O próprio CETA, assinado há quase uma década, continua sem ter sido plenamente ratificado por todos os países da União.
No Parlamento Europeu, Carney acolheu publicamente a proposta de von der Leyen e afirmou que o Canadá está disponível para aprofundar a relação com a Europa. O primeiro-ministro canadiano defendeu uma “aliança única” baseada em interesses e valores partilhados e afirmou que o Canadá e a Europa serão “mais fortes juntos”.
Um acontecimento geoestratégico que os media portugueses tardaram em noticiar e em valorizar.
(Créditos da imagem: Unsplash)