Semanas depois das inundações que atingiram o Nepal e o Tibete, o acesso a informação fiável sobre a catástrofe continua bloqueado. No Nepal, são as infraestruturas destruídas e a desinformação online que dificultam o trabalho dos jornalistas; no Tibete, é a censura do regime chinês que impede qualquer cobertura independente. 

Nepal: jornalistas às cegas no terreno 

A catástrofe atingiu também quem a devia noticiar: segundo os RSF, pelo menos quatro jornalistas nepaleses continuam desaparecidos ou incontactáveis, e muitos dos que sobreviveram trabalham traumatizados e em condições extremas. 

O correspondente dos RSF no Nepal, Binod Dhungel, descreve o impacto como algo que vai muito além das perdas humanas e materiais: em certas zonas, todo o modo de vida de uma comunidade foi apagado. Ainda assim, sublinha, os jornalistas continuam a trabalhar no terreno. 

Porém, as dificuldades são enormes. Estradas destruídas e falta de transportes limitam o acesso de repórteres às zonas afectadas, sobretudo os que estão sediados em Katmandu. Várias estações de rádio locais ficaram fora de serviço e os cortes de energia impossibilitam a impressão de jornais. Pelo menos nove órgãos de comunicação social foram afectados. 

Este vazio informativo tem sido preenchido por números não verificados e relatos contraditórios nas redes sociais, agravados pelo atraso inicial das autoridades na comunicação de crise. Os RSF pediram ao governo nepalês para que garanta acesso seguro dos jornalistas às zonas afectadas, divulgue dados oficiais mais precisos e com maior regularidade, e que as plataformas digitais reforcem a moderação de conteúdos falsos ou gerados por inteligência artificial. 

O projecto de verificação de factos NepalFactCheck, criado durante a pandemia, tem desmentido vários conteúdos falsos associados à catástrofe: um vídeo de uma inundação gerado por IA, imagens de um suposto resgate do Ministro do Interior que na realidade tinham sido filmadas na Índia, e alegações falsas sobre o resgate de trabalhadores presos numa obra hidroeléctrica. O Conselho de Imprensa do Nepal já criou um portal próprio para denúncia de desinformação. 

Um "buraco negro" informativo no Tibete 

Do outro lado da fronteira, a situação é descrita pelos RSF como ainda mais grave. Até ao momento, nenhum meio de comunicação tibetano independente nem qualquer organização noticiosa internacional conseguiu aceder à zona atingida pelas inundações. 

Apenas jornalistas pré-aprovados pelas autoridades, em missões rigorosamente vigiadas, podem entrar no território. Após a catástrofe, só a comunicação social estatal foi autorizada a cobrir os acontecimentos, com um enfoque nos esforços de socorro do regime em vez de um relato completo dos danos. Segundo o jornal estatal Xinjing Bao (The Beijing News), pelo menos dez utilizadores de internet foram punidos por "espalhar rumores" sobre a catástrofe. 

Aleksandra Bielakowska, directora de Defesa dos RSF Ásia-Pacífico, resume a situação afirmando que o Tibete se tornou, sob a liderança de Xi Jinping, um verdadeiro vazio de informação, onde só operam meios controlados pelo Estado e alinhados com as directrizes do Departamento de Propaganda do Partido Comunista Chinês. 

Kalsang Jigme, editor-chefe do meio independente Tibet Radio, nota que o nível de controlo desta vez é particularmente elevado, mesmo em comparação com catástrofes anteriores. Tibetanos no exílio que tentam obter notícias de familiares nas zonas afectadas mostram-se reticentes em falar publicamente, com receio de colocar essas famílias em risco. 

Segundo os RSF, há ainda sinais de censura generalizada nas redes sociais chinesas, com referências às inundações a serem apagadas em plataformas como o WeChat. 

Entre 27 de Agosto e 2 de Setembro, os principais meios de comunicação estatais chineses concentraram grande parte da cobertura na publicação de um novo livro do presidente Xi Jinping e nas suas viagens oficiais ao Quirguistão e ao Egito, relegando as inundações para segundo plano. Ao mesmo tempo, os algoritmos das redes sociais chinesas privilegiaram conteúdos sensacionalistas, enquanto os cidadãos procuravam, sem sucesso, respostas sobre a responsabilidade das autoridades locais pelo deslizamento de terras. 

Alguns comentadores ligados à televisão estatal CGTN acusaram meios internacionais como a BBC de "sensacionalismo" e de instrumentalizar a catástrofe, enquanto desvalorizaram as contagens de vítimas divulgadas por essas organizações. Segundo a FACT News, o governo chinês terá ainda bloqueado o acesso, a partir da China, ao site oficial da polícia nepalesa usado para identificar corpos das vítimas, um bloqueio que os próprios RSF dizem ter confirmado através da sua ferramenta de verificação de acessibilidade de sites na China. 

(Créditos da imagem: RSF)