Os prós e os contras sobre a utilização pelos “media” das grandes bases de dados
“O acesso a novas formas de analisar grandes volumes de informação está a promover uma revolução no modo como vivemos em sociedade. Estamos prontos?”, pergunta, no final do seu recente texto, o jornalista brasileiro, Eduardo Fernando Uliana Barboza.
O artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI mantém parceria, fala sobre a utilização de grandes bases de dados, ou big data, “termo relacionado à manipulação de grandes volumes de dados, actualizados a todo instante”, cujo tamanho vai para além das habilidades em capturar, gerir e analisar as informações com as ferramentas tradicionais dos bancos de dados.
“Guardar informações não é nada novo”, começa por dizer o jornalista. “Os homens primitivos já faziam isso com as suas pinturas rupestres nas cavernas. Hoje, ao invés de utilizar as pedras para arquivar informações, usamos serviços de arquivo nas «nuvens» e em «memórias flash»”, refere.
As camaras de monitorização e vigilância, as caixas multibanco, as transacções online, a utilização de cartões de débito e de crédito, os smartphones e wearables (tecnologias “vestíveis”, como relógios inteligentes, auriculares, entre outros), os registos médicos e os dispositivos de reconhecimento facial e biométrico, “sem contar com a informação produzida e disseminada” através das plataformas de redes sociais e de outras fontes na internet, “são apenas alguns dos canais e dispositivos que geram, a todo instante, amplas quantidades de informações digitais sobre nós”, especifica o autor.
A verdade é que, segundo Barboza, “quando esses dados são analisados, cruzados, interpretados e estruturados”, eles “podem fornecer informações preciosas sobre grupos específicos e indivíduos, dependendo do que se pretende descobrir”.
“A partir da análise desses grandes volumes de dados, é possível entender e identificar uma infinidade de problemas que afectam a sociedade. Trazendo para a vida real a ficção, até então científica, de filmes como “Minority Report”, já temos a capacidade de prever crimes antes que aconteçam, mapeando e cruzando em tempo real boletins de ocorrências policiais de uma determinada região da cidade”, indica o jornalista.
“Analisando grandes fluxos de dados meteorológicos”, em conjunto com as “informações sobre a interrupção do fornecimento de energia elétrica em áreas atingidas por furações, por exemplo, podemos até prever” em quanto tempo um bairro vai ficar sem luz, refere.
São muitas, e variadas, as informações que podem ser retiradas das bases de dados, que podem ter utilidade. “Por exemplo, analisando a base de dados da Companhia de Engenharia de Trânsito de São Paulo (CET), podemos descobrir a velocidade média dos carros em determinado horário na Marginal Tietê. Até esse ponto, nenhuma novidade. Mas se cruzarmos essa informação” com dados sobre abastecimentos pagos “com cartão de crédito, em postos de combustível daquela região, encontramos a média gasta por quilómetro percorrido”, e “se adicionarmos também a base de dados, com informações das operadoras” de telemóveis, “descobrimos quanto tempo os motoristas conversam pelo telefone” enquanto conduzem nessa Marginal, exemplifica Eduardo Barboza.
Como refere Eduardo Barboza, as bases de dados da Autoridade Tributária, das plataformas de streaming, de operadoras de telecomunicações, para além dos hospitais, empresas de serviços energéticos, o saneamento básico ou o controlo do trânsito, podem ser fontes de grandes bases de dados, ou big data.
Diante deste cenário, como é que o jornalismo pode “fazer uso desses dados?”, pergunta o autor.
“O caráter questionador, que defende a transparência, o interesse público e a justiça social, fazem do jornalismo um defensor e utilizador dos dados abertos, bebendo dessa fonte para potencializar as informações contidas nas reportagens”, refere.
“O jornal americano The New York Times e o britânico The Guardian, entre outros pelo mundo, contam com bancos de dados estruturados e abertos ao público. O New York Times foi pioneiro no uso de banco de dados na produção de notícias. Esses meios de comunicação entenderam a importância e o poder dos dados no futuro da sociedade”, lembra o jornalista. “Por isso”, estes media, estão a deixar “de ser apenas” meios de comunicação online, “para se tornarem produtores de conteúdo e informação de relevância social”, escreve o jornalista.
“Contudo, esses dados, que podem vir de diversas origens, do reconhecimento facial ao biométrico, até inputs” em ecrãs tácteis, “também podem ser usados para nos vigiar, manipular, induzir, ou até mesmo para medir os nossos sentimentos e possíveis acções que tomaremos num futuro próximo”, mas este acesso a grandes volumes de informação, está “a revolucionar o modo como vivemos em sociedade”, considera Barboza, que deixa, por isso, a questão para reflexão: “estamos prontos?”.