Os jornalistas e o fenómeno da “projecção social” da opinião pública
Um artigo do Nieman Lab concentra-se na ideia de projecção de opiniões dos jornalistas para o seu público. “Os jornalistas pensam muitas vezes que o discernimento ou o valor das notícias é uma intuição, um indicador interno que o jornalista tem após anos de experiência. Mas a noção que os jornalistas têm do que é notícia e porquê tem um profundo sentido da opinião do público. Quando os jornalistas pensam sobre o que é notícia e como deve ser coberta, estão a pensar em nome de um público e, para isso, precisam de saber o que esse público pensa”.
Contudo, acabam por projectar as suas próprias opiniões, um fenómeno descrito no texto como “projecção social”, que leva a uma percepção distorcida da opinião pública, tornando-a mais semelhante às suas próprias crenças e pontos de vista. Um novo estudo publicado na revista Journalism, que teve como base um inquérito a 371 jornalistas da Bélgica, Suíça e Países Baixos, revelou que esta "projecção social" é comum e varia segundo o perfil dos jornalistas e os temas em análise.
Em oito questões políticas diferentes (nove para os inquiridos suíços), pediram aos jornalistas que estimassem a percentagem de pessoas no seu país que não tinham opinião ou estavam indecisas sobre a proposta política, e depois a percentagem de pessoas que seriam a favor ou contra. Em seguida, perguntaram se os próprios jornalistas concordavam ou discordavam da proposta política numa escala de 1 a 5.
Como explicam os autores, “os jornalistas dos três países estudados tinham percepções da opinião pública [...] que se correlacionavam com as suas próprias opiniões”. Verificou-se também que os jornalistas de direita eram mais propensos a essa projecção do que os de esquerda, possivelmente porque estes últimos “estão mais conscientes das diferenças entre as suas próprias opiniões e a opinião pública, porque são frequentemente criticados pelas suas opiniões de esquerda e pela forma como estas influenciam as suas reportagens”.
A projecção era menor quando os jornalistas reconheciam a incerteza pública sobre o tema ou quando tinham especialização na área. Neste caso, concluíram os autores, os jornalistas podiam basear-se no seu conhecimento da questão para desenvolver uma percepção (presumivelmente mais exacta) da opinião pública, em vez de se apoiarem na sua própria opinião como um substituto em vez de informações mais específicas.
Os investigadores concluem que “a especialização entre os jornalistas poderia reduzir o risco de reportagens distorcidas e melhorar a precisão na representação do sentimento público. No entanto, na realidade, os jornalistas são muitas vezes forçados a tornar-se generalistas, e a especialização profunda está a diminuir”.
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