A cooperativa jornalística Investigate Europe tem vindo a afirmar-se como um modelo inovador de investigação transfronteiriça na Europa. Desde a sua fundação, em 2016, a organização cresceu de um pequeno colectivo para uma equipa de 18 profissionais distribuídos por 10 países, operando com uma lógica de governação partilhada e foco em investigações de impacto. 

Num artigo recente publicado pelo The Fix, a directora editorial, Mei-Ling McNamara, e a produtora de envolvimento do público, Andrea Abellán, explicam como a estrutura cooperativa molda tanto o funcionamento interno como os resultados editoriais da organização. 

Ao contrário da maior parte das redacções tradicionais, na Investigate Europe os membros participam directamente nas decisões estratégicas, desde a contratação até às fontes de financiamento. O processo editorial começa com uma avaliação conjunta das propostas de investigação. “Decidimos se esta história tem potencial de repercussão em dois, três, quatro, talvez cinco países”, explica McNamara. 

Uma vez escolhidos os temas, os jornalistas trabalham em simultâneo nos vários países, recorrendo a leis de acesso à informação, bases de dados e fontes locais. Reuniões semanais asseguram a partilha de dados e a validação cruzada das descobertas, garantindo rigor e coerência numa perspectiva europeia. 

A cooperativa trabalha ainda em estreita articulação com parceiros mediáticos. “Podemos trabalhar em conjunto com eles desde o início”, sublinha McNamara, acrescentando que estes parceiros são frequentemente integrados nas reuniões e no processo de investigação. 

Uma das características centrais do modelo é a criação de uma “cópia mestra” das investigações, que depois pode ser adaptada por cada parceiro mediático ao seu contexto nacional. Este método permite que órgãos de comunicação de referência mantenham a sua identidade editorial, beneficiando simultaneamente de uma base investigativa comum. 

O artigo refere exemplos como o trabalho conjunto com títulos internacionais de grande alcance (The Guardian ou Le Monde), que adaptam as conclusões gerais a realidades nacionais, acrescentando fontes e enquadramento local. 

Nos últimos anos, a Investigate Europe ajustou o seu fluxo de trabalho para privilegiar a profundidade em detrimento da quantidade. A equipa concentra-se actualmente em menos projectos simultâneos, mas mais aprofundados. “Não acreditamos que precisamos de ser tudo para todos o tempo todo”, afirma McNamara. “Não fazendo 20 artigos de uma vez, mas fazendo menos com maior profundidade e maior impacto”. 

Esta estratégia procura evitar o esgotamento das equipas e reforçar a qualidade das investigações. 

A organização aposta fortemente na medição do impacto do seu trabalho. Foi criado um sistema próprio de avaliação que inclui cinco dimensões: institucional, mediática, comunitária, crescimento individual e reconhecimento público. 

Um exemplo citado é a investigação “Scam Europe”, que revelou uma alegada fraude internacional de investimento de 250 milhões de euros operada a partir de call centers na Sérvia. O trabalho contribuiu para confirmar preocupações da Comissão Europeia sobre plataformas digitais e teve efeitos imediatos, incluindo decisões comerciais no sector desportivo em Portugal. 

A sustentabilidade financeira da Investigate Europe baseia-se numa combinação de apoio de fundações, parcerias mediáticas e doações individuais. Cerca de 20% do orçamento anual de 1,1 milhões de euros provém de doadores, sendo o restante assegurado sobretudo por fundações. A organização publica relatórios anuais detalhados, reforçando a transparência e a confiança dos seus financiadores. 

Além disso, a organização investe na formação de novos profissionais, tendo anunciado para 2026 a bolsa Lyra McKee CIJ Investigate Europe, destinada a jornalistas de contextos desfavorecidos. 

Olhando para os próximos anos, a Investigate Europe pretende aprofundar as parcerias com meios de comunicação e instituições académicas, reforçando a sustentabilidade do sector. Como resume McNamara, “quanto mais parcerias fizermos e mais redes criarmos, melhor será a nossa sustentabilidade, incluindo a sustentabilidade financeira”.

(Créditos da imagem: Unsplash)