A recente decisão dos republicanos no Congresso de eliminar o financiamento governamental para os meios de comunicação públicos criou um vazio orçamental de mil milhões de dólares para as estações de notícias locais nos Estados Unidos. Embora entidades nacionais como a NPR e a PBS consigam sobreviver, a existência de pequenas emissoras, sobretudo em zonas rurais, está agora seriamente ameaçada. 

“Em pelo menos um sentido, porém, este ataque ao direito do público às notícias terá uma função unificadora. Os jornalistas, os cidadãos e a sociedade civil como um todo podem ter a certeza de que estamos todos a navegar num pêndulo que oscila a uma velocidade assustadora na direcção errada”, considera Hamilton Nolan, colaborador do Columbia Journalism Review, num artigo para esta organização. 

O autor defende que, para que exista um nível robusto de cobertura jornalística, será necessário assegurar financiamento público ao sector. Não falamos dos 1,1 mil milhões de dólares agora suprimidos, mas sim de dezenas de milhares de milhões: " o suficiente para sustentar a omnipresente cobertura jornalística local e regional, vital para o funcionamento de uma democracia”. 

A publicidade, que outrora sustentava o jornalismo, foi absorvida pelas grandes plataformas tecnológicas — Google, Facebook, entre outras. As soluções alternativas, como o modelo de doações ou subscrições, revelaram-se insuficientes. Neste contexto, o Estado assume-se como financiador de último recurso. 

Hamilton Nolan defende que, enquanto os republicanos detiverem o controlo do governo federal, é pouco provável que o jornalismo venha a receber esse apoio. “Este auge sombrio das últimas duas décadas de declínio da indústria dos media oferece algumas lições aos jornalistas. A primeira é nunca se acomodar demasiado”. A experiência dos últimos anos ensinou aos jornalistas que nenhum cargo é seguro, nenhuma publicação é imune a processos judiciais, perdas de investidores ou viragens políticas. 

A segunda lição prende-se com a mobilização para garantir a sobrevivência. “Gerações de jornalistas americanos foram treinadas para acreditar que o seu ofício, a sua indústria e a sua ética podem pairar acima das preocupações sórdidas da política. Isso sempre foi uma ilusão. Era uma ilusão que era possível sustentar quando as margens de lucro eram elevadas, o sector jornalístico era rentável e os repórteres estavam protegidos da pressão política por uma bolha protectora de receitas”. O jornalismo — enquanto bem público, instrumento de escrutínio do poder e pilar democrático — está desprovido dos recursos necessários à sua missão. E a política é, por definição, a disputa pela alocação de recursos. Os jornalistas precisam de ultrapassar o medo de serem acusados de “politização”. 

Os jornalistas defendem valores fundamentais: o direito à informação, a responsabilização dos poderosos, a liberdade e integridade da imprensa. A falta de fontes jornalísticas adequadas, especialmente a nível local, constitui hoje uma ameaça directa à democracia. A ideia de que o despedimento de milhares de jornalistas resultaria numa população mais desinformada — e, portanto, mais vulnerável à manipulação — deixou de ser uma hipótese. É uma realidade “bastante comprovada”. 

Mesmo num momento em que o pêndulo político parece oscilar em direcção à austeridade, à privatização e à oligarquia, importa lembrar que nenhum pêndulo oscila indefinidamente para o mesmo lado. O extremismo político tende a atingir o seu próprio limite. Um bom uso do tempo enquanto atravessamos esta fase é planear o que queremos recuperar — e construir — quando o ciclo inverter. 

“Podemos oferecer ao público uma bela visão: notícias locais em abundância em todas as comunidades”, com repórteres que conhecem o território, que cobrem reuniões da câmara municipal, acompanham o desporto escolar e estão atentos aos interesses locais. “Não basta repor o financiamento da Corporation for Public Broadcasting. É preciso criar um fluxo permanente de financiamento público para sustentar o jornalismo em todo o país, para que todo o projecto democrático não se desintegre ao serviço dos gráficos de acções das grandes empresas”. 

O autor lembra que “a verdade obscurecida pela gritaria de fake news é que as pessoas gostam de jornalismo. Querem e precisam de saber o que se passa”. Perante um ataque ideológico concertado, jornalistas e instituições mediáticas devem lutar na arena política pela sua sobrevivência. E conclui: “Sim, sentirão a nossa falta quando partirmos. Mas tentemos não desaparecer”. 

(Créditos da imagem: Samuel Corum/Sipa USA (Sipa via AP Images) - retirada do site do CJR)