A cultura da inovação no ensino do jornalismo
Com esse currículo, iniciou a sua carreira docente na Universidad de las Américas, onde era necessário um especialista que pudesse organizar a área de jornalismo digital. Corria o ano de 2016, e na estrutura da licenciatura em Jornalismo, “o digital não foi pensado de forma transversal, mas sim como disciplinas dispersas ministradas em diferentes semestres”.
“O desafio era integrar todo o conteúdo num espaço de prática profissional intensiva”. Moreano, que também tinha feito uma pós-graduação, em Transformação Digital das Organizações, na Pompeu Fabra, assumiu essa tarefa.
Como organizou o Canal Udla, o meio jornalístico da Universidade?
(RM) Pensamos na transformação digital das práticas dividindo o curso em três áreas: reportagem, produção, redes sociais e site. Cada aluno muda de área semanalmente e, assim, formamos uma redacção que produz informações actuais todos os dias da semana. O professor responsável pela área de Reportagem dirige uma reunião editorial e define os temas e conteúdos da semana a partir da proposta do aluno.
O professor de Produção é quem define todos os detalhes e necessidades de produção e eu, que sou responsável pela área de redes sociais e site, trabalho com a equipa de alunos na adaptação de formatos para as redes e na sua publicação no site. Monitorizamos o conteúdo e vemos, de acordo com o assunto, o que publicamos: se fazemos por reel, por post, se vai para o Twitter ou Instagram. Cada um de nós, os editores, tem assistentes que são graduados da licenciatura e com os quais formamos uma equipa de trabalho.
Você publica em todas as redes de igual modo ou concentra-se mais numas do que noutras?
(RM) Das nossas redes, o Twitter é a mais importante. Todo o nosso crescimento lá foi orgânico porque, sendo um meio universitário, não podemos pagar nenhum tipo de promoção para crescer e em parte foi melhor, porque conseguimos torná-lo num meio de referência. Isto, tem a ver com o momento em que o canal nasceu, porque naquela época não existia Instagram nem TikTok. Mas agora que estamos consolidados lá, a ideia é gerar audiência nas outras redes. Estamos a promover muitos outros formatos para crescer no Instagram, com tons e temas diferentes dos do Twitter e experimentar, de forma muito embrionária, o TikTok. Também dou atenção ao site porque é importante gerar conteúdos e mantê-lo actualizado 24 horas por dia.
O Jornalismo é uma profissão que tem muito a ver com carpintaria, um ofício, uma rua movimentada e, claro, falta isso aos alunos. Com este projecto corrigimos o que é tão necessário para a prática jornalística. Nas primeiras semanas de aula, os professores precisam de administrar muitas emoções porque, embora seja uma redacção, afinal é um laboratório de aprendizagem”, afirma Moreano, orgulhoso do trabalho dos seus alunos e da sua publicação.
Que narrativas colocam os alunos em prática?
(RM) Produzimos reportagens multimédia, estamos prestes a adicionar podcasts à página e geramos reportagens no Instagram que, são a porta de entrada para as informações publicadas. Fazemos isso em cooperação com professores de outras disciplinas. A verdade é que geramos muitos conteúdos e inovamos cada vez mais. Por exemplo, agora fazemos talk shows com actores políticos e programas desportivos. Apesar de sermos um veículo universitário, o nosso público não são os estudantes. Isso é um desafio.
Que características um jornalista do século 21 não pode deixar de ter?
(RM) Acho que há duas coisas que são transversais a todos os exercícios, para além das inovações tecnológicas; contraste e verificação de informações. E eu acrescentaria um novo valor nesse novo ecossistema, que é tentar ser o mais justo possível, tanto com os seus próprios princípios quanto com a história que se está a contar. Quero dizer que existe uma tendência inevitável, que é a opinião, e isso é algo que se deve observar com atenção.
Atribui essa maturidade de opinião aos criadores de conteúdos ou a uma mudança na profissão?
(RM) Existe uma tendência que não me parece má, mas deve ser seguida de perto, que é a criação de conteúdos de nicho; um jornalismo que defende causas, que pode ser muito bom, mas que não necessariamente produz informação de qualidade, verificada, com fontes, com números. E isso pode tornar-se em propaganda se for baseado apenas em opinião. Eu encontro essa mesma tendência em muitos meios de comunicação e parece-me que temos de nos esforçar para fazer o trabalho o mais profissionalmente possível.
Na carreira existe uma disciplina chamada “Geração de Conteúdos”, ela é ditada pelo professor responsável pela área de produção da redacção. Acho que se a barreira entre o jornalismo e a produção de conteúdos está cada vez mais permeável, a partir da academia é preciso diferenciá-los ainda mais. Estabeleça alcances e limitações entre um e outro, porque há exemplos muito bons, mas se as fronteiras ainda estão a estabelecer-se para nós, jornalistas profissionais, é lógico que para os estudantes sejam mais difusas.
No interior da carreira, ensina como gerar receitas nalgum meio?
(RM) Embora o assunto não seja muito desenvolvido no Equador, oferecemos uma unidade de inovação e empreendedorismo na web, na qual devem propor uma ideia de desenvolvimento no campo da comunicação e do jornalismo. Aí vemos como através do Design Thinking, adaptado para que os alunos tenham as ferramentas para pensar uma ideia e gerar um produto, uma comunidade pode ser mapeada, investigada, entrevistar pessoas e identificar qual é a necessidade comunicativa.
A partir daí propomos uma solução. O bom é que isso se tornou no projecto de licenciatura dos alunos e acho que no futuro não será apenas uma aula, mas um caminho formal. Por outro lado, digamos que os alunos saibam como é a indústria dos media, que está cada vez mais reduzida, então essas ideias e assuntos devem ser promovidos.