A maioria dos americanos considera a liberdade de imprensa importante para a sociedade, mas existem algumas reservas. É essa a principal conclusão de um novo estudo do Pew Research Center, em parceria com a Pew-Knight Initiative, que revela divisões significativas sobre até que ponto o governo deve poder restringir a actividade jornalística, sobretudo quando estão em causa preocupações com desinformação ou segurança nacional. 

O estudo baseia-se em dois inquéritos realizados em Março e Junho de 2026, com cerca de 3500 adultos norte-americanos cada, complementados por dez grupos de foco conduzidos em Maio e Junho do mesmo ano. 

Segundo o Pew Research Center, não existe uma definição única e partilhada da liberdade de imprensa. Embora as ideias dos inquiridos convirjam genericamente para um tema central (a capacidade de relatar ou publicar informação livremente), muitos participantes dos grupos de foco descreveram a liberdade de imprensa através de preocupações como a precisão da informação, a influência governamental ou corporativa sobre os media, a censura ou o acesso mais amplo à informação. 

O estudo nota que existe um apoio geral à liberdade de imprensa como ideal abstrato, mas os detalhes tornam-se determinantes assim que este valor é ponderado face a outros factores, como a segurança nacional ou o combate à desinformação. 

Quando confrontados com a escolha entre precisão informativa e liberdade de imprensa, os americanos inclinam-se ligeiramente para a primeira: 53% dizem ser mais importante impedir reportagens imprecisas, mesmo que isso limite a liberdade de imprensa, contra 45% que defendem a liberdade da imprensa para noticiar os factos, ainda que algumas reportagens sejam imprecisas. 

Segurança nacional e desinformação 

Seis em cada dez americanos afirmam que o governo deveria poder exigir a retirada de um artigo se este representar um risco para a segurança nacional, e cerca de metade (51%) diz o mesmo relativamente a artigos que contenham informação falsa. Já a possibilidade de restringir reportagens por favorecerem um lado político (14%) ou por criticarem o governo (10%) é rejeitada pela grande maioria dos inquiridos, independentemente da sua filiação partidária. 

Há, no entanto, uma clara divisão entre republicanos e democratas: os primeiros, e os independentes com tendência republicana, são mais propensos a defender que o governo deve poder restringir conteúdos por motivos de segurança nacional (72% contra 50% entre os democratas) ou por conterem desinformação (59% contra 45%). 

Este debate divide também a opinião dos participantes nos grupos de foco. "A minha maior preocupação é que, com a liberdade de imprensa plena, qualquer jornalista possa dizer qualquer coisa a qualquer momento, sem factos, sem provas, alegando que aquilo é verdade, seja qual for a sua opinião ou a sua reportagem", afirmou um participante de direita, com aproximadamente 40 anos. "E isso preocupa-me, pois pode afectar todos os que assistem ou lêem a reportagem." 

Do lado oposto, um homem de esquerda, na casa dos 50 anos, questionou a legitimidade de muitos dos argumentos de segurança nacional invocados pelo governo: "Qual é a fonte que me diz que é uma emergência? Estão a citar preocupações com a segurança nacional. Quantas emergências tivemos desde que o nosso actual presidente assumiu o cargo? Algo em torno de 27 emergências? Como se tudo fosse uma emergência? Para mim, é apenas mais uma oportunidade para reprimir a imprensa." 

Curiosamente, os americanos respondem de forma muito semelhante quando a pergunta envolve empresas de redes sociais em vez do governo. Cerca de 67% apoiam que uma plataforma remova a publicação de um utilizador que represente risco para a segurança nacional, e 53% concordam com a remoção de conteúdos com informação falsa. Já a remoção por tendência política (11%) ou crítica ao governo (15%) reúne muito pouco apoio. 

Percepção sobre o estado actual da liberdade de imprensa 

O estudo indica que 73% dos americanos consideram a liberdade de imprensa extremamente ou muito importante para o bem-estar da sociedade — um valor que se tem mantido estável, rondando os três quartos do público, em cada um dos últimos três anos. Em contraste, apenas 8% consideram-na pouco ou nada importante. 

"Ela foi criada para nos proteger. É um ponto de orgulho deste país", resumiu um participante de esquerda, homem com cerca de 60 anos, num dos grupos de foco. "E isto não é verdade em muitos outros países (...) É para o benefício do país e dos seus cidadãos, ainda mais do que para os jornalistas." 

A maioria dos membros de ambos os partidos considera a liberdade de imprensa extremamente importante, ainda que os democratas o afirmem com mais frequência do que os republicanos (81% contra 66%). 

Ainda assim, a percepção sobre o grau de liberdade efectiva dos media tem-se deteriorado: a percentagem de americanos que considera que a imprensa tem total liberdade para noticiar os factos caiu de 33% no ano passado para 28% actualmente. Cerca de metade (48%) considera que a imprensa tem "alguma liberdade", e 23% dizem que não é muito livre ou não é de todo livre. 

Em paralelo, a fatia de americanos extremamente ou muito preocupados com possíveis restrições à liberdade de imprensa subiu de 41%, em 2024, para 46% actualmente. 

As diferenças partidárias nestas duas questões inverteram-se face a 2024, quando Joe Biden era presidente. Actualmente, os democratas são menos propensos do que os republicanos a considerar a imprensa totalmente livre (18% contra 41%) e muito mais propensos a manifestar um elevado nível de preocupação com possíveis restrições (64% contra 29%). O Pew Research Center nota ainda que essas diferenças partidárias se tornam mais evidentes quando cruzadas com a ideologia dos inquiridos: em 2026, os republicanos conservadores são os mais propensos, e os democratas liberais os menos propensos, a considerar a imprensa completamente livre. 

A liberdade de imprensa comparada com outros direitos 

O estudo procurou também perceber como a preocupação com a liberdade de imprensa se compara com a preocupação relativa a outros direitos fundamentais. No total, 46% dos adultos americanos dizem estar extremamente ou muito preocupados com possíveis restrições à liberdade de imprensa — uma percentagem semelhante à registada para o direito de voto (46%), a liberdade de reunião pacífica (47%) e a liberdade de expressão (50%). 

Os democratas revelam-se, de forma consistente, muito mais preocupados do que os republicanos com o estatuto destes quatro direitos. Em contrapartida, os republicanos manifestam-se claramente mais preocupados do que os democratas com eventuais restrições ao direito de posse de armas, enquanto ambos os grupos partidários expressam níveis semelhantes de preocupação com a liberdade religiosa. 

O impacto de Trump na liberdade de imprensa 

Donald Trump tem um longo historial de relações conflituosas com a imprensa, notado pelos americanos desde o seu primeiro mandato. Desde o seu regresso à Casa Branca, a nova administração tomou várias medidas que classifica como necessárias, mas que os críticos veem como restrições à liberdade de imprensa. Disputas judiciais com órgãos de comunicação social, restrições ao acesso de jornalistas e esforços para identificar fontes confidenciais são alguns exemplos. 

No total, 44% dos adultos norte-americanos consideram que a imprensa se tornou menos livre durante o segundo mandato de Trump, contra apenas 12% que defendem o oposto. Cerca de um quarto (26%) não nota alterações, e 17% diz não ter a certeza. Entre os que consideram que a liberdade de imprensa diminuiu, a esmagadora maioria (92%) classifica essa evolução como negativa para o país. 

A diferença partidária nesta questão é particularmente acentuada: 72% dos democratas dizem que a imprensa ficou menos livre desde o regresso de Trump ao poder, contra apenas 15% dos republicanos — dos quais um em cada cinco considera que a imprensa se tornou mesmo mais livre durante a actual administração. 

Estas diferenças partidárias reflectem divisões mais amplas identificadas nos grupos de foco sobre o que os americanos consideram constituir uma verdadeira ameaça à liberdade de imprensa. Para muitos participantes de esquerda, as ameaças provêm sobretudo de acções do governo para restringir os jornalistas. "Acho que as autoridades deste país não se preocupam tanto com a Constituição como o resto de nós", disse um homem de esquerda na casa dos 50 anos. "Vão tentar limitar tudo o que puderem que não os favoreça ou os faça parecer bem. Isso é um grande problema para mim." 

Já à direita, as preocupações tendem a centrar-se no controlo da informação, na censura institucional e na alegada parcialidade dos media tradicionais. Vários participantes de direita nos grupos de foco avaliaram favoravelmente a compra do Twitter (actual X) por Elon Musk, que um homem com cerca de 50 anos classificou como "um grande ponto de viragem". "O próprio governo de Biden foi prejudicial a tudo isto, porque havia muita censura", afirmou outro participante de direita. "Elon Musk tinha dinheiro, por isso comprou o Twitter e disse: 'Chega disto.' (...) Ele abriu a plataforma para que qualquer pessoa que tivesse uma opinião sobre qualquer coisa pudesse expressá-la. E acho que isso iniciou uma tendência de regresso ao que deveria ser." 

Outros participantes destacaram positivamente a disponibilidade de Trump para responder a perguntas e conceder entrevistas. "Gosto do facto de o presidente Trump, pelo menos, saber como conduzir uma conferência de imprensa todas as semanas, ao contrário do governo anterior. Nós não tínhamos nada. Não tínhamos nada", disse um homem de direita na casa dos 60 anos. Já uma mulher com cerca de 50 anos sublinhou a disponibilidade do presidente para debater com críticos: "Ele dá entrevistas para o outro lado e critica-os abertamente." 

Apesar de todas estas divergências, há um ponto de convergência entre os dois campos políticos: tanto republicanos como democratas — 70% e 74%, respectivamente — consideram que a relação actual entre a administração Trump e a imprensa é má ou muito má. 

(Créditos da imagem: Unsplash)