Este terceiro aniversário foi oportunidade para um novo balanço do que aconteceu, das suas consequências e das suas lições. O jornalista Philippe Lançon, gravemente ferido em 2015, lamenta hoje que “Je suis Charlie” tenha tão depressa “deixado de me convencer”. 

No início  - como afirma no Libération -  “era um grito humanista, de espanto e de melancolia; dizia-me que eu vivia num país onde milhões de indivíduos, fossem quem fossem ou pensassem, se erguiam espontaneamente para dizer que não queriam habitar num mundo em que se massacram caricaturistas cujo trabalho é fazer rir”. (...) Era como dizer: “Eu não leio necessariamente o Charlie, não gosto necessariamente do Charlie, mas recuso que se matem os que o fazem.” (...) 

“Muito depressa o individualismo publicitário do slogan se diluiu nas diversas e inevitáveis traduções políticas de que foi objecto. (...) ‘Je suis Charlie’ tornou-se a etiqueta mágica que se fazia dançar ao gosto dos seus interesses, das suas lutas e dos seus preconceitos; de modo claro: uma imposição.” 

“Esta imposição, que degradava, como sempre, o impulso original, variava segundo os utilizadores do slogan. Ela visava reunir, tanto como excluir, ou reagrupar excluindo, como é próprio da ideologia. Quem diz imposição, diz reacção: ao fechar-se, ‘Je suis Charlie’ provocou os ‘Eu não sou Charlie’, ou os ‘Eu sou isto’, ‘Eu sou aquilo’, contra Charlie, igualmente fechado. Desde que um slogan apareça como arma de um poder, todos os que se sentem, com razão ou sem ela, apontados por esse slogan, por esse poder, sentem um prazer nervoso em se oporem a ele.” (...) 

Por seu lado, em France Info, Fabrice Nicolino conta que por vezes se ri de ameaças que tanto ele como os seus colegas consideram “totalmente delirantes”, mas que há sempre quem lhes lembre que “por detrás delas há pessoas muito sérias e que são capazes de passar ao acto. (...) Podemos sempre ser atacados por esses cretinos.” (...) 

A vida quotidiana está cheia de “terríveis medidas de protecção”, “carros pesadamente blindados”, “muitos polícias”. O semanário continua em “estado de sítio” em Janeiro de 2018, o que causa um ambiente “fatalmente ansiogénico”, mesmo não sendo “sinistro”. Foi criada uma panic room, um “sítio ultra-securizado onde é suposto precipitarem-se todos em caso de alerta”.

No número especial de 3 de Janeiro, o caricaturista Riss, actual chefe de redacção do Carlie Hebdo, deplora o custo muito pesado da protecção da sede, “entre um a cerca de um milhão e meio de euros por ano, inteiramente a cargo do jornal”  - o que equivale a perto de 800 mil exemplares... 

 

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