Uma das manifestações mais recentes de provincianismo informativo deu-se a propósito do abandono inopinado do futebolista Ronaldo, que voltou as costas à Selecção Nacional, descontente com os critérios do selecionador, optando por meter-se no seu avião privado, de regresso ao paraíso árabe onde reside, e onde, pelos vistos, as suas aptidões em campo são mais apreciadas do que aquelas que exibe no banco…

Nessa noite, em uníssono, as televisões portuguesas generalistas e temáticas, abriram os principais blocos noticiosos com a notícia da fuga do futebolista. Até aí tudo bem.

O problema foi, em seguida, dedicarem ao assunto meia hora e mais de tempo de antena em “prime time”, com os inevitáveis comentadores associados, como se estivesse em causa um assunto de emergência nacional ou de invulgar relevância.

Desde o operador público aos privados, todos capricharam, sem excepção, em encher os ecrãs com as mais alucinadas teses sobre a birra do futebolista, transformando o assunto numa espécie de psicodrama nacional.  

Se este paroquialismo mediático não fosse em si mesmo um retrato deprimente da “tabloidização” das televisões - e das águas turvas em que navega uma parte significativa do nosso jornalismo -, tudo se agravou com a iniciativa, absurda e patética, do primeiro-ministro que, provavelmente, à mingua de outras questões mais importantes de interesse nacional, resolveu também “entrar em campo”, numa tentativa fruste de “mediar o conflito”, a pretexto dos danos para a imagem do País resultantes da ruptura do futebolista com a Selecção.

Confunde-se cada vez mais a política com o futebol e este com a política, o que é um sinal também da nossa pobreza franciscana...

Não é este o espaço próprio para avaliar o comportamento (lamentável) de Ronaldo, que, teimosamente, pretende ignorar as leis naturais, que obviamente o condicionam em função do bilhete de identidade, e cujo amor à camisola se materializou, dias depois de abandonar o estágio da Selecção, ao erguer e beijar os símbolos máximos da Arábia Saudita, terminado o jogo da equipa na qual alinha.

A histeria informativa pacóvia em que caíram os media, no seguimento de um triste episódio, é bem revelador da inversão de valores a que assistimos.

Depois os media e os jornalistas não se podem queixar da deserção de leitores, em particular dos mais jovens, dos meios audiovisuais tradicionais a favor das plataformas globais e das redes sociais, como um recente estudo académico documenta.   

De acordo com essa investigação, como se refere noutro espaço deste site, seis em cada dez jovens dizem já não querer saber das notícias. Três em cada quatro, entre os 18 e os 24 anos, informam-se mais nas redes sociais do que nos sites dos jornais, e mais de metade diz-se saturada da negatividade.

Os responsáveis editoriais fariam a bem em não desprezar e em reflectirem sobre estas conclusões. Enquanto é tempo…