O peso da “orfandade informativa” na actual campanha eleitoral do Brasil
Cerca de 32 milhões de brasileiros podem ser considerados "párias informativos" na actual campanha eleitoral, segundo alerta o jornalista Carlos Castilho num artigo de opinião publicado no Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI. Trata-se de moradores de cidades com menos de 20 mil habitantes, onde "há pouca ou nenhuma circulação de notícias locais", uma situação que, segundo o autor, dificulta gravemente a participação destes eleitores no debate sobre problemas municipais e regionais.
Entre o "mais do mesmo" local e a agenda nacional
Na ausência de jornalismo local, Castilho descreve que os moradores de pequenas cidades ficam divididos entre duas opções: "suportar o 'mais do mesmo' em matéria de candidatos locais ou submeter-se à agenda dos grandes jornais nacionais". Segundo o autor, este cenário gera desinteresse pelas eleições e torna os eleitores "vulneráveis à instrumentalização do noticiário por influenciadores pagos por candidatos".
O artigo aponta ainda uma assimetria na forma como diferentes jornalistas cobrem as eleições: "Os repórteres de jornais sediados em grandes cidades tendem a ver as questões locais como uma forma menor de política, enfatizando aspectos caricaturais ou brutais", enquanto os profissionais que cobrem campanhas municipais "tendem a seguir a orientação das elites locais, como prefeitos, caciques políticos e empresários de sucesso".
Para Castilho, o problema não está em apontar culpas individuais aos jornalistas — "não se trata de definir quem é melhor ou pior repórter" —, mas nas consequências que esta dinâmica tem para o eleitor local, sujeito a uma cobertura eleitoral "em que a grande preocupação é saber quem está na frente e quem vai perder, quase como nas corridas de cavalos".
Segundo o autor, esta lógica é alimentada pelo volume de recursos das campanhas nacionais, o que deixa as questões municipais "intocadas porque os eleitores não têm informações adequadas sobre elas". Como resultado, "muitos prefeitos e vereadores eleitos transformam, impunemente, as prefeituras em negócios privados".
Castilho aponta, ainda, uma contaminação editorial nos grandes jornais: "O volume de dinheiro e a intensidade da luta pelo poder contaminam os núcleos de decisão editorial nos principais jornais do país", escreve, acrescentando que isso alimenta o "cepticismo de muitos eleitores em relação à imprensa e à política".
O valor do jornalismo de proximidade
Em contraponto, o autor defende que a imprensa local está "mais próxima dos moradores", o que permite aos jornalistas "conhecer melhor os problemas municipais e contribuir para a sua solução". Na sua visão, o jornalista local pode "funcionar como curador, sugerindo fontes de informação, e como tutor, ao orientar os eleitores a identificar dados e factos que possam servir para reforçar campanhas pela solução de problemas comunitários".
Alguns exemplos internacionais
Castilho cita experiências internacionais bem-sucedidas em países como "Estados Unidos, Finlândia, Austrália, Inglaterra e Holanda". Destaca, em particular, o chamado jornalismo cívico, surgido nos Estados Unidos no final do século passado, em que "repórteres e editores estabelecem uma estreita relação com comunidades locais", promovendo encontros entre moradores e candidatos para debater questões específicas de cada localidade, uma prática que, segundo o autor, "levou alguns políticos a mudar a sua agenda de campanha eleitoral".
O artigo refere ainda uma tendência mais recente, baptizada de modelo "conversa na cozinha", inspirada na abordagem académica "Kitchen Table Conversations". Trata-se de um formato em que, "em vez de questionários", investigadores preferem "tomar o pulso político dos eleitores participando das conversas familiares na mesa da cozinha, durante o pequeno-almoço".
Castilho conclui que acabar com a "orfandade informativa" destes eleitores é "um desafio enorme para o jornalismo", por envolver a inserção de 32 milhões de brasileiros "na produção de conhecimento socialmente relevante". E alerta que a cobertura eleitoral é apenas uma face do problema: segundo o autor, "já está provado que a prevenção de tragédias naturais depende de dados e factos fornecidos por leitores, ouvintes, telespectadores e influenciadores locais".
(Créditos da imagem: Unsplash)