Em apenas dois anos, o Pamplonews passou de um projecto lançado por um antigo jornalista da CNN para um meio de comunicação hiperlocal com cerca de 27 mil assinantes numa cidade de 200 mil habitantes. De segunda a sexta-feira, às 07h30, as notícias de Pamplona chegam directamente aos leitores através do WhatsApp. Agora, o projecto está a explorar novas aplicações e fontes de receita para tornar o modelo sustentável e, eventualmente, replicá-lo noutras cidades. 

A ideia nasceu em 2023, quando Juan Andrés Muñoz, depois de 25 anos a trabalhar em meios de comunicação globais, decidiu concentrar-se numa escala muito mais pequena. Para o fundador e director editorial do Pamplonews, é precisamente no jornalismo hiperlocal que os meios podem ter um impacto mais directo na vida das comunidades. 

“Depois de passar 25 anos a trabalhar em meios de comunicação globais, como a CNN, percebi que é nas notícias hiperlocais que se consegue fazer a maior diferença, porque é aí que se influencia realmente as pessoas com a informação que se divulga”, explicou em entrevista ao The Fix

A escolha do WhatsApp surgiu da percepção de que a distribuição de notícias estava a mudar e de que os leitores procuravam informação em canais cada vez mais próximos do seu quotidiano. “Também percebi que a divulgação das notícias estava a ocorrer em diferentes canais, não apenas nos tradicionais, mas cada vez mais de forma coloquial. Achei que o WhatsApp era a melhor forma de divulgar o conteúdo, porque toda a gente o tem, já que é muito popular em Espanha.” 

O resultado foi uma newsletter diária exclusivamente distribuída através da aplicação de mensagens. A proposta editorial passa por seleccionar informação útil para os habitantes de Pamplona, evitando a lógica de maximizar o conflito ou a polarização. 

“Estamos a tentar satisfazer as necessidades dos utilizadores e garantir que a comunidade receba o conteúdo mais relevante, e não conteúdo polarizador”, afirma Muñoz. 

27 mil assinantes em dois anos 

Em apenas seis meses, o Pamplonews passou de zero para 12 mil assinantes. Actualmente, conta com cerca de 27 mil, o equivalente a uma parcela significativa da população da cidade. “Temos cerca de 27 mil assinantes numa cidade de 200 mil habitantes. Se excluirmos as crianças, estamos a alcançar cerca de 20% a 25% do mercado potencial”, explica o fundador. 

O crescimento assenta também na própria natureza do canal de distribuição. “Cada vez que surgem novos assinantes, isso atrai mais assinantes. É assim que funciona a viralidade.” 

Apesar da dimensão alcançada, o projecto continua a ser uma operação pequena. A equipa é composta por três pessoas (Juan Andrés Muñoz e os seus dois irmãos, Miguel e Javier) e funciona em regime parcial. 

Miguel é responsável pela programação e pelo produto, enquanto Javier assegura a componente gráfica e o estilo caricatural que caracteriza o meio. “Este não é o nosso trabalho principal, todos trabalhamos a tempo parcial, mas adoramos este projecto e servir a comunidade”, conta Muñoz. 

Apesar da reduzida dimensão da equipa, o Pamplonews conseguiu desenvolver um conjunto diversificado de ferramentas digitais. O objectivo é complementar a informação jornalística com serviços úteis para os habitantes e criar formas de interacção com a comunidade. 

Entre as aplicações desenvolvidas está uma ferramenta de estacionamento baseada na API pública dos parques da cidade. O projecto criou também uma aplicação para as paragens de autocarro, depois de considerar que a aplicação oficial não respondia adequadamente às necessidades dos utilizadores. 

A equipa desenvolveu ainda uma aplicação para o Wolves Festival, uma ferramenta dedicada à Semana del Pincho e um ecossistema de comércio local com códigos QR para acesso a descontos. 

Outra das experiências foi uma aplicação de emprego que recorreu a inteligência artificial e aprendizagem automática para cruzar os perfis dos utilizadores com ofertas disponíveis. O projecto contou com o patrocínio da Câmara de Comércio de Navarra. 

A estratégia nem sempre funcionou como esperado. No caso da aplicação de comércio local, o acesso estava inicialmente condicionado aos assinantes do Pamplonews. A funcionalidade acabou por ser suspensa devido à dificuldade em levar os comerciantes locais a adoptar as novas ferramentas. “Percebemos que as empresas locais ainda eram muito tradicionais e não estavam preparadas para adoptar esta tecnologia com códigos QR”, explica. 

A experiência mais recente do Pamplonews aposta no futebol. A equipa criou uma aplicação de previsões e competição baseada no desempenho dos jogadores das primeiras e segundas divisões espanholas, com particular atenção ao Osasuna, o clube de Pamplona. 

Os utilizadores podem escolher cinco jogadores, incluindo um capitão, até oito horas antes de cada partida. A pontuação é posteriormente calculada com base no desempenho dos jogadores seleccionados e nas previsões efectuadas. 

“Queríamos lançar algo envolvente em torno do futebol para a nossa cidade, baseado em jogos de ligas fantásticas e com foco na nossa equipa de futebol, o Osasuna”, explica Muñoz. 

Depois dos jogos, os resultados são disponibilizados praticamente em tempo real, permitindo aos utilizadores comparar o seu desempenho com o dos amigos através de classificações. 

A aplicação conta actualmente com cerca de 400 utilizadores, sobretudo em Pamplona. O Osasuna é a equipa mais representada, mas o projecto começa também a atrair adeptos do Real Madrid e do FC Barcelona. 

O modelo combina utilização gratuita com funcionalidades pagas. A primeira equipa é gratuita, enquanto a criação de uma segunda equipa custa 1,99 euros. As empresas podem igualmente criar ligas públicas e oferecer prémios aos participantes, pagando 99 euros pela experiência. 

“Para além da monetização, este jogo também nos poderia permitir, caso lançássemos uma nova newsletter nessas cidades, já sermos conhecidos por termos o jogo”, afirma. 

O desafio da sustentabilidade 

Apesar do crescimento da audiência, a sustentabilidade financeira continua a ser o principal desafio. “É um desafio, tal como para qualquer meio de comunicação hoje em dia, mas acho que já estamos a ver a luz ao fundo do túnel”, admite o fundador. 

A prioridade passa agora por transformar a dimensão da comunidade em receitas. “A monetização é o nosso principal foco neste momento, pois estamos a tentar garantir que extraímos valor destes mais de 27 000 utilizadores.” 

Uma das fontes de receita são os anunciantes ou entidades que pagam para garantir a divulgação de eventos na newsletter. A publicação diária inclui, no máximo, cerca de 16 ou 17 notícias. 

O projecto está também a olhar para receitas directamente provenientes dos leitores. Muñoz admite o lançamento de um modelo de assinatura que coloque parte dos produtos e conteúdos atrás de um paywall

A estratégia poderá incluir conteúdos exclusivos, novas aplicações e funcionalidades reservadas aos assinantes. O desafio, reconhece o fundador, será convencer os leitores espanhóis a pagar por informação. “Em Espanha, as pessoas não estão habituadas a pagar por conteúdos, detestam isso.” 

Ainda assim, a intenção é apresentar a subscrição não apenas como uma compra de conteúdo, mas como uma forma de apoiar directamente o meio e garantir a sua continuidade. 

Um modelo para replicar 

Muñoz acredita que, se conseguir demonstrar que um meio hiperlocal pode ser economicamente viável numa cidade de dimensão média, o modelo poderá ser replicado. 

O fundador considera que o projecto foi pioneiro na utilização do WhatsApp como principal canal de distribuição de informação jornalística em Espanha e Portugal e diz ter apresentado o modelo em conferências na Europa e nos Estados Unidos. 

Mais do que competir directamente com os grandes meios, o Pamplonews procura ocupar um espaço específico: o das notícias e serviços que fazem parte do quotidiano de uma comunidade concreta. O WhatsApp funciona como porta de entrada, enquanto as aplicações procuram transformar o meio num ecossistema digital de serviços locais. 

A próxima etapa será perceber se essa relação de proximidade pode ser convertida num negócio sustentável. Se funcionar em Pamplona, a experiência poderá deixar de ser apenas um caso de inovação no jornalismo local e transformar-se num modelo exportável para outras cidades.

(Créditos da imagem: Asociación de Informadores de Elche)