O debate sobre a obrigatoriedade de um diploma de jornalismo para o exercício da profissão tem sido conduzido em torno de questões jurídicas, políticas e laborais, segundo aponta Carlos Castilho num artigo para o Observatório da Imprensa do Brasil — parceiro do CPI —, deixando para segundo plano aquilo que considera ser o elemento central da actividade jornalística: a informação. 

O autor defende que a discussão deve ser reformulada à luz das profundas transformações provocadas pela internet, pela multiplicação de fontes de informação e pela generalização da inteligência artificial (IA). Para Carlos Castilho, mais do que discutir a obrigatoriedade de uma formação académica específica, é necessário questionar que competências devem ter os profissionais responsáveis por produzir e verificar informação num ambiente digital cada vez mais complexo. 

“A obrigatoriedade de diploma esteve mais associada a práticas corporativistas do que à melhoria da qualidade e confiabilidade das notícias fornecidas ao público”, escreve o autor. Contudo, considera que a actual realidade mediática alterou substancialmente os termos do debate, uma vez que “a informação passou a ser a matéria-prima mais valorizada da era digital”. 

Castilho sublinha ainda que a importância da informação ultrapassa o próprio sector dos media, influenciando a formação de opiniões e decisões individuais e colectivas. “Além disso, ela assumiu importância transcendental na formação das nossas opiniões, percepções e posicionamentos”, afirma. 

Informação: uma actividade de elevada complexidade 

Na perspectiva do autor, o crescimento exponencial da quantidade de informação disponível tornou mais complexa a tarefa de seleccionar, verificar, contextualizar e distribuir conteúdos. As consequências dessa actividade podem, defende, ter impacto directo sobre sociedades e instituições. 

“Lidar actualmente com a informação tornou-se uma actividade extremamente complexa cujas consequências podem determinar o rumo de países, de comunidades e influir na solução de dilemas como a crise ambiental global, guerras, fluxos financeiros mundiais e migrações”, escreve. 

Castilho considera que já existe um reconhecimento generalizado dos riscos associados à circulação de notícias falsas e defende que os profissionais que ocupam posições estratégicas nos fluxos de informação devem estar preparados para identificar processos de desinformação. 

“É preciso que indivíduos altamente capacitados para lidar com informação ocupem posições estratégicas na configuração de fluxos globais de notícias para detectar a tempo processos de desinformação em escala local, nacional ou global”, sustenta. 

Crise do modelo de negócio alterou relação com a imprensa 

O autor relaciona esta transformação com a própria evolução histórica do jornalismo. Durante quase dois séculos, argumenta, a actividade esteve fortemente dependente das empresas de comunicação social e dos seus modelos económicos, o que acabou por conferir um peso significativo à rentabilidade no processo de produção de notícias. 

Para Castilho, o desenvolvimento do corporativismo jornalístico esteve também ligado à tentativa dos profissionais de proteger valores como a independência, a isenção, a objectividade e a credibilidade da informação perante os interesses económicos das empresas. 

As tecnologias digitais vieram, entretanto, alterar essa relação. A crise do modelo de negócio tradicional dos media, acompanhada pelo encerramento de órgãos de comunicação social e pela redução das redacções, empurrou muitos profissionais para formas autónomas de trabalho. 

“A relação entre profissionais e a imprensa deixou de ser de dependência para ser a de um ‘salve-se quem puder’, por conta da crise do modelo de negócios das empresas jornalísticas”, escreve. 

O fenómeno foi acompanhado pelo crescimento das plataformas digitais e pelo aparecimento de um grande número de produtores independentes de conteúdos. Entre estes estão os chamados influenciadores, que passaram também a produzir e distribuir informação com objectivos de monetização. 

O resultado, segundo Castilho, contribuiu para aquilo que descreve como um “caos noticioso”. Neste cenário, a qualidade da informação passa a ser, na sua perspectiva, simultaneamente uma condição para a sustentabilidade dos profissionais e uma ferramenta de combate à desinformação. 

Um novo papel para o jornalista 

É neste contexto que o autor atribui ao jornalista uma função renovada no ecossistema mediático. Mais do que produzir conteúdos para alimentar modelos de negócio baseados na publicidade, os profissionais deverão assumir uma responsabilidade acrescida enquanto agentes de verificação e garantia da qualidade da informação pública. 

“O jornalista ganhou assim um papel-chave, entre todas as actividades e profissões ligadas à comunicação pública, como garantidor da qualidade informativa indispensável à nossa existência como cidadãos digitais”, defende. 

Essa responsabilidade, acrescenta, exige uma preparação diferente daquela que tem sido tradicionalmente proporcionada aos profissionais. “Isto exige que os novos jornalistas tenham uma qualificação muito superior à que é oferecida hoje pelas universidades”, escreve, apontando para a necessidade de responder a desafios mais complexos, sobretudo num contexto de utilização generalizada de ferramentas de inteligência artificial. 

A transformação tecnológica, na visão de Castilho, implica assim uma combinação de formação humana e competências técnicas. O jornalista passa a ocupar uma posição sensível num ecossistema em que a informação adquiriu um valor estratégico crescente. “Esta nova inserção do jornalismo na estrutura social da era digital obviamente dá aos seus praticantes responsabilidades que exigem mais formação humana e capacitação técnica”, afirma. 

Repensar a profissão 

A reflexão de Carlos Castilho acaba por deslocar a questão da discussão sobre a existência ou não de um diploma obrigatório para uma discussão mais abrangente sobre as competências necessárias ao exercício do jornalismo. 

Para o autor, os profissionais não devem ser vistos apenas como trabalhadores encarregados de produzir notícias para sustentar modelos comerciais. A função social do jornalismo tornou-se mais evidente precisamente devido às consequências que a desinformação e as notícias falsas podem ter na sociedade. 

“A função social do jornalismo, que ficava diluída no frenético dia a dia das redacções, tornou-se concreta e mensurável ao analisar-se as consequências da desinformação e das notícias falsas”, escreve. 

Castilho defende, por isso, uma discussão profunda sobre os procedimentos, regras e valores que deverão orientar a profissão num contexto digital. Na sua leitura, o jornalismo está progressivamente a afastar-se de uma definição centrada na actividade empresarial dos media para assumir uma função social mais ampla. 

“O jornalismo está a deixar de ser associado a uma actividade empresarial para exercer um papel social que impacta profundamente a sociedade”, conclui. 

É neste ponto que, para o autor, reside o principal desafio para a profissão: não apenas determinar quem pode exercer jornalismo, mas garantir que quem o exerce possui preparação suficiente para lidar com a informação num ambiente marcado pela abundância de dados, pela desinformação e pela inteligência artificial. “Este é o grande desafio que não será resolvido por juízes, nem por legisladores, mas sim pela maior capacitação dos profissionais do jornalismo para lidar com a informação”, defende Carlos Castilho. 

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