Um dos jornais mais antigos ligados às Forças Armadas dos Estados Unidos está no centro de uma polémica sobre censura e interferência política, depois de três figuras de destaque terem sido afastadas semanas após a publicação de reportagens incómodas para o Pentágono. 

Stars and Stripes nasceu na década de 1860 e é hoje dirigido sobretudo a militares norte-americanos e às suas famílias. Apesar de receber financiamento parcial do Departamento de Defesa (DoD), o jornal construiu ao longo de décadas uma reputação de independência editorial. 

A 21 de Agosto, foram afastados do jornal o editor-chefe Erik Slavin e Max Lederer — este último já tinha anunciado a sua saída, alegando conflitos com a direcção do Pentágono. A correspondente no Médio Oriente, Lara Korte, foi igualmente demitida. O Departamento de Defesa recusou comentar os despedimentos. 

Segundo Slavin, a carta de demissão que recebeu invocava insubordinação e uma aparição não autorizada na comunicação social como justificação para o seu afastamento. Em causa está uma entrevista dada em julho à CBS News, na qual Slavin e Korte abordaram rumores de interferência editorial no jornal. Nesse mesmo programa, foi destacado um trabalho de Korte sobre a incerteza vivida por famílias de militares destacados no Médio Oriente, na sequência da evacuação de bases norte-americanas após ataques do Irão. 

Slavin afirma ter sido demitido, em concreto, por ter dito à CBS que o Stars and Stripes tinha intenção de censurar notícias. 

O fim de décadas de garantias de independência 

Durante muitos anos, as políticas do Departamento de Defesa protegeram explicitamente a autonomia editorial do Stars and Stripes, exigindo um fluxo livre de notícias e informação para os seus leitores, sem qualquer tipo de gestão ou censura por parte da tutela militar. Essas garantias, porém, foram revogadas em Janeiro. Na altura, o porta-voz do DoD, Sean Parnell, defendeu publicamente nas redes sociais que o jornal deveria reorientar o seu conteúdo, afastando-se daquilo que descreveu como um excesso de correcção política. 

Em Março, o Pentágono avançou com um memorando que proíbe o jornal de publicar tiras de banda desenhada e de republicar artigos da agência Associated Press. Já em Abril, tinha sido demitida Jacqueline Smith, jornalista responsável por assegurar que a redacção do Stars and Stripes não sofresse pressões externas (uma função criada pelo Congresso norte-americano em 1991 precisamente para, através de contacto directo com legisladores, proteger a independência da publicação). 

Para o professor Vivaldo Jose Breternitz, que partilhou a sua opinião num artigo para o Observatório da Imprensa do Brasil (parceiro do CPI), este episódio insere-se numa tendência de pressão sobre a imprensa por parte da administração de Donald Trump. O professor associa as demissões no Stars and Stripes às pretensões que classifica como imperiais do presidente e do seu círculo próximo, referindo como exemplo adicional o processo em curso para renomear o Departamento de Defesa como Departamento de Guerra. 

(Créditos da imagem: Wyoming Public Radio)