Pedro Duarte, presidente da Câmara Municipal do Porto e vice-presidente do PSD, admite que poderá ser necessário repensar o modelo de financiamento do jornalismo para responder à crise provocada pela desinformação nas redes sociais e proteger a democracia.  

Considera que as plataformas digitais contribuíram para destruir o modelo económico tradicional dos meios de comunicação social e defende que o Estado poderá ter de estudar novas formas de apoio ao sector. “Se queremos que a democracia sobreviva, se calhar temos de olhar de outra maneira para aquilo que deve ser o modelo de sustentabilidade no jornalismo”, afirmou Pedro Duarte no debate ‘Algoritmos: Democracia fragilizada?’, integrado na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide. 

O antigo ministro dos Assuntos Parlamentares, que teve a tutela da comunicação social no primeiro Governo de Luís Montenegro, considera que “as redes sociais destruíram o modelo económico” dos media. Na sua perspectiva, a sustentabilidade do jornalismo não poderá depender exclusivamente das regras de mercado. “Do ponto de vista estritamente económico, o modelo económico do jornalismo não resulta se deixarmos o mercado funcionar só por si”, sustentou. 

Apoio público com independência 

É neste contexto que Pedro Duarte admite a possibilidade de estudar um modelo de financiamento público do jornalismo. O social-democrata estabelece, contudo, como condição essencial que qualquer mecanismo de apoio preserve a independência editorial dos meios de comunicação social: “Temos de garantir um jornalismo livre, independente do poder público, com critérios de rigor e de transparência, se um dia houver esse tal financiamento ao jornalismo”, afirmou. 

O antigo governante reconhece que a criação de um mecanismo desta natureza levantaria dificuldades, sobretudo pela necessidade de assegurar que o financiamento público não se transforma numa forma de condicionamento político dos órgãos de comunicação social. 

Ainda assim, considera que a discussão deve ser feita perante aquilo que identifica como uma degradação do espaço público provocada pela desinformação e pela crescente influência das plataformas digitais. 

“Se conseguirmos lá chegar, talvez todos possamos dessa maneira começar a salvar a democracia e encontrar o antídoto para aquilo que é este mundo perigoso em que todos estamos mergulhados”, afirmou. 

As redes sociais e a crise do modelo dos media 

A intervenção de Pedro Duarte coloca a sustentabilidade económica do jornalismo no centro do debate sobre o impacto das redes sociais na democracia. Para o autarca, a transformação do ecossistema mediático não é apenas uma questão empresarial, uma vez que a fragilização económica dos meios tradicionais tem consequências na capacidade de produzir informação jornalística profissional. 

O antigo ministro sublinhou, contudo, que não responsabiliza os próprios meios de comunicação social pela situação. “Ao contrário do que muitas vezes os políticos dizem”, afirmou, não pretende fazer uma crítica aos media, reconhecendo que estes funcionam também segundo uma racionalidade económica. 

A questão, na sua leitura, passa por encontrar um modelo que permita garantir a existência de jornalismo profissional e independente num mercado em que as plataformas digitais alteraram profundamente a distribuição da informação e a captação de receitas publicitárias. 

No mesmo debate, Pedro Duarte defendeu também a necessidade de alguma regulação das redes sociais, nomeadamente para permitir maior escrutínio sobre quem controla os algoritmos que determinam a circulação dos conteúdos. 

O combate à desinformação e aos populismos, argumentou, não deverá significar simplesmente adoptar as mesmas regras de funcionamento das plataformas digitais. 

A discussão sobre o financiamento do jornalismo surge, assim, associada a uma questão mais ampla sobre a sustentabilidade do espaço público: garantir a existência de meios capazes de produzir informação profissional, independente e rigorosa num ambiente digital onde a desinformação e os conteúdos determinados por algoritmos ganharam uma influência crescente. 

Para Pedro Duarte, a resposta poderá exigir uma mudança na forma como a sociedade encara a sustentabilidade dos media — incluindo a controversa possibilidade de recorrer a financiamento público, desde que sejam asseguradas regras de independência, rigor e transparência. 

(Créditos da imagem: Essential Business)