Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, e os jornalistas russos emigraram maciçamente para continuar a informar de forma independente o público russo, muitos órgãos de comunicação social lançaram versões em inglês das suas publicações, na tentativa de encontrar novas fontes de receita. Para a maioria destes projectos, porém, a versão em inglês não passa de uma extensão do site russo original, com artigos traduzidos e adaptados para um público internacional. 

A jornalista Farida Rustamova, conhecida pelas suas reportagens exclusivas sobre as autoridades russas, seguiu um caminho diferente. Numa entrevista ao The Fix, explica que, em vez de traduzir o conteúdo do seu canal russo no Telegram, transformou o boletim informativo em inglês numa publicação separada, dirigida especificamente a especialistas, diplomatas, académicos e decisores políticos interessados em reportagens exclusivas vindas de dentro do establishment político russo. 

De boletim ocasional a publicação regular 

O projecto nasceu em 2022 com o nome Faridaily, um trocadilho com o nome da jornalista, funcionando inicialmente como um complemento ocasional em inglês às suas reportagens dirigidas a leitores russos. À medida que a procura internacional por informação privilegiada sobre o Kremlin foi crescendo, o projecto evoluiu para uma publicação mais regular, culminando, em Abril de 2026, no relançamento sob um novo nome: Vlast ("Poder"), que reflecte o foco exclusivo da publicação na elite política russa. 

Segundo Rustamova, essa mudança de marca já está a dar resultados: "parece que, com a mudança de nome, os meios de comunicação estrangeiros passaram a citar-nos com mais facilidade." A reformulação ajudou também a aumentar a visibilidade da publicação e a base de subscritores, que inicialmente dependia sobretudo de leitores vindos do Twitter (actual X). 

11 mil subscritores em inglês, 64 mil seguidores em russo 

Actualmente, o Vlast conta com mais de 11 000 subscritores, enquanto o canal de Telegram em russo de Rustamova reúne quase 64 000 seguidores. Apesar de ambos os projectos se apoiarem na mesma base de trabalho jornalístico, funcionam hoje como produtos separados, geridos por duas equipas pequenas e distintas: a equipa em inglês inclui colaboradores conhecidos publicamente, enquanto vários membros da equipa russa, e colaboradores freelancer, permanecem anónimos por motivos de segurança. 

O canal em russo continua a ser financiado sobretudo através de donativos, um modelo que, no entanto, expõe cada vez mais os doadores a riscos legais significativos, dado o apoio prestado a jornalistas independentes que operam a partir de dentro da Rússia. É por isso que o objectivo de Rustamova a longo prazo passa por tornar o Vlast financeiramente sustentável através de subscrições pagas, para que este possa também sustentar o canal russo. Para já, a publicação em inglês depende de uma combinação de assinaturas de leitores e de subsídios de apoio a jornalistas russos exilados. 

Uma decisão nascida do colapso do jornalismo independente russo 

A decisão de lançar este projecto mediático remonta aos primeiros meses da invasão, numa altura em que Rustamova trabalhava como freelancer e via poucas perspectivas de se juntar a outra organização. 

Antes da guerra, lançar o seu próprio produto era, para Rustamova, uma ideia abstrata. Mas a guerra mudou tudo: "senti que tinha algo para dizer naquele momento", recorda. "Queria, de alguma forma, impedir que as ruínas que restavam do jornalismo independente russo fossem completamente destruídas." 

Ser jornalista independente russa hoje implica múltiplos desafios: desde a adaptação a novos países até à perseguição legal por reportar sobre a guerra, sem esquecer a dificuldade permanente de financiar o próprio trabalho. Rustamova não esconde a dimensão desse desafio: "posso dizer que este desafio, que é o meu trabalho, o trabalho da nossa pequena equipa, é provavelmente a coisa mais difícil que já fiz na minha vida." Ser uma operação de menor escala do que outros projectos de jornalistas exilados significa também menos recursos para marketing e angariação de fundos, o que acaba por limitar o alcance do projecto. 

Resiliência com cautela 

Ainda assim, Rustamova sente que construir o seu próprio projecto a torna mais resiliente face às circunstâncias actuais — a sua permanência num determinado país não depende de um empregador que patrocine o seu visto de trabalho, o que, a falhar, poderia obrigá-la a regressar à Rússia e a enfrentar perseguição legal por trabalhar num veículo independente. "Nunca ninguém pensou que a guerra durasse tanto tempo, que se agravasse e que, para os jornalistas, o caminho de regresso a casa estaria cada vez mais distante", diz. 

Ainda assim, a jornalista usa a palavra "resiliente" com cautela: "tudo é tão imprevisível e muda tão rapidamente hoje em dia. Não se sabe quem é resiliente e quem não é. Tudo muda tão rápida e inesperadamente." Como exemplo dessa imprevisibilidade, Rustamova recorda a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de cortar os programas de ajuda externa em 2025, um corte que afectou também o financiamento de projectos de jornalismo exilado: "nem nos EUA ninguém pensou nisso", acrescenta.

(Créditos da imagem: Unsplash)