The Lever aposta no “jornalismo lento” como alternativa mediática
O site de jornalismo de investigação The Lever está a seguir um caminho diferente do habitual: em vez de aumentar a produção para acompanhar o ciclo noticioso do segundo mandato de Donald Trump, a organização optou por concentrar-se em menos histórias, mas mais aprofundadas.
Desde 2025, o número de subscritores gratuitos do The Lever cresceu 66%, ultrapassando os 260 mil leitores, enquanto a organização se prepara para atingir o maior número de colaboradores da sua história.
Fundado em 2020 por David Sirota, antigo colunista do Guardian US e conselheiro sénior da campanha presidencial de Bernie Sanders, o projecto nasceu como uma newsletter diária focada em investigação. Hoje, inclui um website, dois podcasts e dez newsletters temáticas.
Apesar do crescimento da equipa, que deverá atingir 21 colaboradores após o preenchimento de seis vagas em aberto, o volume de produção editorial diminuiu significativamente.
Segundo o editor-chefe Joel Warner, a publicação abandonou a meta inicial de publicar uma grande investigação original todos os dias. Actualmente, o The Lever produz apenas duas ou três reportagens de fundo por semana. “Não temos medo de simplesmente não publicar algo num determinado dia. Acreditamos que o importante é a qualidade, não a quantidade”, afirmou Warner ao Press Gazette.
O jornalista considera que a intensidade informativa da actual administração Trump elevou o nível de exigência para os meios de comunicação independentes. “Há tanta coisa a acontecer que uma história que poderia ter chamado a atenção há dois ou três anos pode já não conseguir fazê-lo hoje”, explicou. “Por isso, toda a equipa elevou os critérios na escolha dos temas que realmente interessam às pessoas.”
Investigações de longa duração
A aposta do The Lever passa por dedicar meses a investigações capazes de revelar informação inédita.
Warner aponta como exemplo uma recente investigação sobre o descarrilamento de um comboio ocorrido há mais de três anos. A reportagem revelou que um acordo de indemnização considerado histórico não estava a beneficiar as vítimas conforme anunciado.
Segundo a investigação, muitos dos lesados não receberam os montantes prometidos, enquanto alegados esquemas de corrupção comprometiam a distribuição dos fundos.
“Foi uma história que nos ocupou durante vários meses e que envolvia algum risco”, explicou Warner. “O mais importante não é necessariamente o tema em si, mas a possibilidade de fazermos jornalismo de investigação tradicional e revelar algo que ninguém sabia.”
Modelo de subscrição mais flexível
Em 2025, o The Lever alterou o seu modelo de financiamento. Depois de operar com um sistema baseado em donativos semelhante ao utilizado pelo Guardian, introduziu uma estrutura formal de subscrição.
Os leitores podem agora aceder gratuitamente a três artigos por mês e receber uma newsletter diária. A subscrição paga, no valor de 10 dólares mensais, oferece acesso ilimitado ao conteúdo, podcasts sem publicidade e participação em eventos virtuais exclusivos.
Apesar da mudança, Warner descreve o modelo como uma “subscrição muito permeável”. Os leitores que não tenham condições financeiras para pagar podem solicitar acesso gratuito directamente à redacção, uma prática que o meio pretende manter.
O crescimento da base de leitores tem sido impulsionado sobretudo pela newsletter "Lever Daily" e pelo sucesso do podcast "Master Plan".
Actualmente na sua segunda temporada, o programa é distribuído gratuitamente nas principais plataformas de áudio e deu origem à publicação de um livro com o mesmo nome.
Segundo Warner, o website registou cerca de 2,5 milhões de visitas ao longo de 2025. Dados da Similarweb indicam que o site recebeu aproximadamente 236 mil visitas apenas em Maio.
Embora o número de assinantes pagos não seja divulgado, a organização prevê um crescimento de cerca de 10% neste segmento durante 2025, após um aumento de 16,5% registado no ano anterior.
Comunidade como motor de financiamento
Além das subscrições, o The Lever continua a depender de donativos dos leitores, campanhas periódicas de angariação de fundos e uma pequena fatia de receitas publicitárias provenientes de newsletters, podcasts e do website.
A organização recebeu cerca de 2000 donativos ao longo de 2025. Warner destaca que ofertas promocionais, como o acesso gratuito à versão digital do livro Master Plan, têm ajudado a converter leitores gratuitos em assinantes.
Mais importante ainda, afirma, é o sentimento de pertença criado junto da comunidade. “As pessoas sentem que são donas daquilo que fazemos e que fazem parte desta equipa”, disse. “E, depois de se tornarem assinantes, são muito mais propensas a contribuir com donativos adicionais ou a encontrar outras formas de nos apoiar.”
A filosofia de jornalismo lento também está a moldar a cobertura das eleições intercalares norte-americanas de Novembro.
Em vez de competir com os grandes meios nacionais na cobertura diária da campanha, o The Lever começou a trabalhar antecipadamente em investigações relacionadas com financiamento político, grupos de influência e redes de financiamento obscuro.
“Nunca conseguiremos competir com os grandes meios em número de repórteres”, reconheceu Warner. “Mas acreditamos que, se começarmos mais cedo a seguir o dinheiro e a ligar os pontos entre diferentes grupos e organizações, conseguiremos encontrar um espaço próprio.”
(Créditos da imagem: Press Gazette)