O jornalista e ensaísta Ramsés Albertoni desafia uma das formulações mais repetidas na defesa do jornalismo: a ideia de que os media funcionariam como “guardiões da memória”. 

Num extenso ensaio sobre jornalismo, memória e poder, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil (parceiro do CPI), Albertoni sustenta que essa imagem “sedutora na sua simplicidade” esconde a natureza profundamente selectiva, política e ideológica da produção jornalística. 

“A formulação pressupõe precisamente o que deveria demonstrar”, escreve o autor, acrescentando que ela “cumpre uma função ideológica precisa, a de naturalizar a autoridade do campo mediático sobre o passado colectivo”. 

Segundo Albertoni, o problema está na própria concepção de memória utilizada por esse discurso. Em vez de funcionar como um arquivo neutro que preserva acontecimentos de forma fiel, a memória colectiva é sempre uma reconstrução condicionada pelas necessidades e relações de poder do presente. 

Como a memória reconstrói 

O autor recorre a várias referências clássicas das ciências sociais e da teoria da memória para sustentar o argumento. A partir do pensamento do sociólogo Maurice Halbwachs, Albertoni lembra que “toda a memória é social antes de ser individual”. 

“Lembrar, nessa perspectiva, não é recuperar um passado intacto depositado em algum espaço mental ou documental, é produzi-lo retroactivamente segundo as condições que organizam a experiência presente de quem lembra”, escreve. 

Nesse processo, o esquecimento deixa de ser um acidente ou falha técnica e passa a constituir parte essencial da própria construção da memória. “O esquecimento, longe de ser uma falha ou uma lacuna acidental, é um mecanismo constitutivo dessa produção.” 

O ensaio situa o jornalismo numa posição intermédia entre memória e história, recorrendo à distinção proposta pelo historiador francês Pierre Nora. Enquanto a memória seria “vivida, afectiva, sempre actual”, a história funcionaria como representação crítica do passado. 

O jornalismo, argumenta Albertoni, ocupa uma fronteira instável entre ambas: “Ele habita a fronteira entre os dois regimes, e é precisamente essa posição liminar que o torna um agente privilegiado, e perigoso, na constituição da memória pública.” 

O perigo, explica, não é moral, mas estrutural: os media frequentemente apresentam como registo neutro aquilo que resulta de enquadramentos políticos e escolhas institucionais. 

O que o jornalismo escolhe esquecer 

Grande parte da crítica centra-se nos critérios de selecção jornalística (chamados de news values) que determinam quais os acontecimentos considerados noticiáveis. Com base nos estudos de Nelson Traquina, Albertoni argumenta que o jornalismo tende a privilegiar “o espectacular em detrimento do estrutural, o evento em detrimento do processo histórico”. 

“O que o jornalismo ‘lembra’ não é uma amostragem representativa do real, mas o resultado de uma triagem produtiva”, refere. Nesse sentido, o chamado “arquivo jornalístico” da memória pública seria menos um repositório neutro e mais “um campo de disputas em que certas versões do passado adquirem legitimidade”. 

Aquilo que fica fora da cobertura mediática — por ausência de enquadramento, invisibilização ou falta de interesse editorial — torna-se tão importante quanto o que é noticiado. 

Os “silêncios históricos” 

O ensaio recorre ainda ao antropólogo haitiano Michel-Rolph Trouillot para defender que os “silêncios históricos” não surgem por acaso. Segundo Albertoni, o jornalismo participa activamente na definição do que merece ser tratado como acontecimento histórico e do que permanecerá invisível. “O jornalismo não apenas regista acontecimentos, mas participa activamente da sua definição como acontecimentos.” 

A análise aproxima-se também das teorias de Stuart Hall sobre os mecanismos de enquadramento mediático e de Pierre Bourdieu acerca das pressões estruturais do campo jornalístico. 

Bourdieu, recorda o autor, descrevia um “efeito de ocultação” produzido pelos media, que privilegiam acontecimentos extraordinários e visíveis, deixando em segundo plano as causas estruturais que lhes dão origem. “Essa é uma forma de esquecimento particularmente eficaz precisamente porque opera sob o signo da visibilidade”, escreve Albertoni. 

A necessidade de uma auto-reflexão do jornalismo 

Apesar da crítica, Albertoni não rejeita a importância social do jornalismo. O autor insiste, porém, que reconhecer a selectividade estrutural da prática jornalística é essencial para evitar a naturalização da autoridade mediática sobre o passado colectivo. 

“Reconhecer a selectividade como condição estrutural do trabalho jornalístico não é um convite ao cepticismo paralisante, mas o ponto de partida para uma prática reflexiva que, ao invés de naturalizar os seus próprios enquadramentos, os submeta permanentemente à interrogação crítica sobre o que escolheu lembrar, e, sobretudo, sobre o que, ao fazê-lo, decidiu esquecer”, termina.

(Créditos da imagem: Unsplash)